A validade do caráter revolucionário da classe trabalhadora e de seu partido de vanguarda.
Diego Torres*
O
papel da classe trabalhadora
Desde
sua criação, o socialismo científico se distingue de outras teorias ao
identificar na sociedade existente uma força social destinada a destruir o
capitalismo e edificar uma nova sociedade. Essa força social é a classe
trabalhadora. Desde os primeiros trabalhos marxistas, desde os primeiros
manuscritos, como por exemplo, A Situação da Classe
Trabalhadora na Inglaterra, O Manifesto Comunista ou Os Princípios do Comunismo, “o principal elemento
da doutrina de Marx e Engels foi a clarificação do papel histórico do
proletariado como o criador da sociedade socialista” [1].
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| Manifestação operária na França. |
Marx e Engels basearam suas proposições
em uma profunda análise da economia capitalista. Quais são as condições,
características e qualidades da classe trabalhadora para ser destinada a cumprir
esse papel?
Em primeiro lugar, é a classe mais
explorada na sociedade capitalista. Suas condições de vida são determinadas
pelo fato de que sua existência, prazeres e pesares, vida e morte, dependem
exclusivamente da venda de sua força de trabalho a um capitalista e das
condições desta venda, dadas por flutuações de mercado. Essas condições de
vida, esse interesse vital, os levam a lutar constantemente até a morte contra
a classe capitalista, e torna o proletariado o adversário mais consequente e
firme do sistema capitalista.
Isso não é puramente uma observação
empírica; é baseada na descoberta da teoria do mais-valor, que permanece
completamente válida. A presente crise capitalista de superprodução e
superacumulação vieram para destruir as últimas ilusões daqueles que pensam que
na economia a esfera da circulação poderia se desenvolver independentemente da
esfera da produção e das leis que a governam.
Em segundo lugar, a classe trabalhadora
está ligada ao desenvolvimento das forças produtivas. Enquanto trabalhadores,
não estão ligados ao passado da produção, com os remanescentes de antigos
sistemas de produção, mas sim com o desenvolvimento e o futuro da produção.
Isso significa, contra muitas
avaliações, que o desenvolvimento material do capitalismo, a grande indústria,
não ameaça a existência do proletariado enquanto uma classe, não destrói suas
posições na sociedade; na verdade, esse desenvolvimento impele o crescimento
numérico dos trabalhadores e aumenta seu papel na vida social.
É metodologicamente inconsistente tomar
um período curto de tempo para avaliar o desaparecimento do proletariado. A lei
da proletarização da população mostra seu impressionante alcance quando nós
analisamos o capitalismo como um todo. Por exemplo, em meados do século XIX nos
EUA, a classe trabalhadora, trabalhadores e suas famílias, constituíam menos de
6% da população. Na Alemanha, não passavam de 3%. Em meados do século XX, essa
cifra havia crescido para metade da população em ambos os casos. Hoje em dia,
de acordo com a OIT, em escala global, a classe dos trabalhadores que não
possuem meios de produção e que vendem sua força de trabalho em troca de um
salário tem oscilado em torno de 65% da população desde os anos 1980.
Isso significa que os interesses e
aspirações da classe trabalhadora coincidem com a orientação geral do
desenvolvimento das forças produtivas. O nível de desenvolvimento atingido
pelas forças produtivas requer a supressão da propriedade privada dos meios de
produção. Na verdade, isso é anunciado pela supressão relativa da propriedade
privada sobre meios concentrados e centralizados, mesmo sob o capitalismo, com
o crescimento das sociedades anônimas e monopólios [2]. Desprovida de toda a
propriedade privada sobre os meios de produção, a classe trabalhadora não pode
ter grande estima por ela. Na verdade, a propriedade privada dos meios de
produção é a base para a exploração do trabalhador pelo capitalista, motivo
pelo qual a sua supressão e substituição pela propriedade social é a única
forma que a classe trabalhadora tem para se emancipar.
O fato de que, apesar disso tudo, a
classe trabalhadora conta com qualidades, derivadas de sua posição na produção,
consideradas indispensáveis para o trabalho revolucionário, não escapou aos
mestres do socialismo científico.
Por
exemplo, nós já falamos sobre seu crescimento numérico constante, “o movimento
proletário” – disseram Marx e Engels no Manifesto Comunista –
“é o movimento independente da grande maioria pelo interesse da grande
maioria”.
Não se trata, no entanto, apenas do
aspecto quantitativo, mas também da agência da própria burguesia que ao
concentrar os meios de produção, junta milhares de trabalhadores sob os tetos
das fábricas, normalmente situadas em polos da concentração de capital, ou
seja, nas grandes cidades. Assim, o proletariado supera a dispersão e a
isolação. Conforme problemas de ordem subjetiva são superados e o nível de
consciência de classe aumenta, os trabalhadores podem se unir e se organizar
melhor do que qualquer outra classe.
Essa concentração da classe
trabalhadora é independente de certos processos temporais. Pode haver períodos
de tempo e países em que uma seção dos capitalistas opta por descentralizar ou
seccionar o processo produtivo. Essa opção obedece, geralmente às condições em
que é conveniente para capturar mais mais-valor ou dispersar temporariamente a
classe trabalhadora e dificultar sua organização, quando o sacrifício é
considerado necessário. De toda forma, essa opção é revertida após algum tempo,
e o processo geral mostra que a tendência do capital aponta para a
concentração. Isso é comprovado pelo crescimento ininterrupto dos monopólios,
pelo fato que uma grande porcentagem da classe trabalhadora trabalha
diretamente para eles e o seu reflexo no crescimento ininterrupto das concentrações
urbanas.
Além
disso, a classe trabalhadora é a classe mais capaz, por meio de suas próprias
condições, de se organizar. O trabalho nas grandes empresas acostuma o
trabalhador ao espírito do coletivismo, de disciplina severa, a ações conjuntas
e à solidariedade. Por exemplo, Engels fala sobre sua rigorosa disciplina,
adjetivada como militar, em A Situação da Classe
Trabalhadora na Inglaterra, e Lenin sublinha em seus Cadernos sobre o Imperialismo como o capitalista
acostuma a classe trabalhadora a uma extraordinária precisão em cada movimento.
E tudo isso antes da vigilância e controle que as novas tecnologias de
informação e telecomunicações permitiram!
De todas as classes oprimidas, a classe
trabalhadora é a mais capaz de desenvolver sua consciência e aceitar uma
ideologia científica. O avanço da indústria demandou mais e mais trabalhadores
educados. A manipulação de máquinas complexas e valiosas que sustentam a
produção hoje demanda um alto grau de preparação científica e um nível cultural
muito maior do que formações econômicas precedentes.
Essa é a soma de todas as condições
históricas e econômicas que tornam a classe trabalhadora a classe mais
militante e revolucionária da sociedade. Essas condições históricas e
econômicas mantém sua força nos dias de hoje.



