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terça-feira, 25 de agosto de 2020

Os Dois Dias que Abalaram o Brasil

   Transcorridos setenta e oito anos desde os afundamentos dos navios mercantes brasileiros pela ação covarde do submarino alemão U507, quem poderia imaginar que um notório nazifascista, apologista da tortura, lacaio desprezível do imperialismo norteamericano e dos capitalistas, ocupasse a presidência em nosso país?

   O único objetivo do seu governo é atacar os mínimos direitos do povo trabalhador, favorecendo o grande empresariado e as multinacionais, além de destruir a saúde e educação públicas. Sua ânsia desvairada em servir a ganância dos poderosos o transformou no principal responsável pelo morticínio da pandemia de covid-19.

   Que a memória dos homens, mulheres e crianças que morreram vítimas dos torpedos nazistas, em agosto de 1942, assim como dos soldados brasileiros que tombaram em solo italiano combatendo o nazifascismo, não seja esquecida e que sirva de exemplo para as novas gerações de brasileiros. 







segunda-feira, 24 de agosto de 2020

A Revolução Tecnológica no Coração das Contradições do Capitalismo Senil

Samir Amin

2004

1- A revolução tecnológica contemporânea é um fato importante, que não ponho em dúvida, e considero inclusive o ponto de partida necessário da análise do que é "novo" na evolução do capitalismo. 

A diferença está em, por um lado, a análise que se faz da natureza desta revolução, em comparação com as precedentes, e, por outro, nas consequências políticas que daí se podem extrair. 

Tal como creio que há que fazer, analiso as revoluções tecnológicas em termos da lei do valor. Nesta análise, a produção é, em definitivo, o produto do trabalho social e o progresso da sua produtividade manifesta-se por meio da redução da quantidade de trabalho social total necessário para a produção de uma unidade de valor de uso. 

2- As revoluções tecnológicas anteriores na história do capitalismo (a primeira, a da máquina a vapor e das máquinas têxteis dos finais do século XVIII, princípios do XIX; a segunda, a do ferro, do carvão e dos caminhos de ferro, em meados do século XIX; a terceira, a da eletricidade, do petróleo, do automóvel e do avião em princípios do século XX) traduziram-se todas elas numa redução da quantidade de trabalho social total necessário para a produção dos valores de uso considerados, mas também no aumento da proporção que representa a quantidade de trabalho indireto (atribuído à produção dos meios de produção) em relação à de trabalho direto (atribuído à produção final). A revolução tecnológica em curso inverte esta tendência. Permite o progresso da produtividade do trabalho social por meio da adoção de tecnologias que se traduzem na redução da proporção do trabalho indireto

Resumo estas observações no seguinte esquema quantitativo simplificado: 

Quantidade de trabalho necessário (para a produção de uma unidade de valor de uso dada) 

 

Trabalho total 
(1)

Trabalho direto 
(2)

Trabalho indireto 
(3)

Relação 
(3)/(2)

1- Ponto de partida

100

80

20

0,25

2- Primeiras revoluções

50

25

25

1,00

3- Revoluções em curso

25

17

8

0,50

A produtividade do trabalho social duplica quando se passa de 1 a 2 à custa de uma intensificação capitalista das tecnologias adotadas, enquanto que um progresso da produtividade, idêntico quando se passa de 2 a 3 (o dobro desta) vem acompanhado de uma inversão do movimento da intensidade capitalista dos métodos de produção. 

3- As relações de produção capitalistas implicam que a entrada na produção esteja reservada aos que possuem um capital suficiente para instalar os equipamentos necessários. Assim, o aumento da intensidade capitalista através da qual se manifestaram as sucessivas revoluções industriais nos séculos XIX e XX proporcionou ao capital um domínio crescente sobre os trabalhadores desprovidos de outros meios de vida que não fossem a venda da sua força de trabalho (incapazes, pois, de "produzir" por si mesmos – isto é, sem capital – bens competitivos). 

A inversão do movimento através do qual se manifesta o progresso científico e tecnológico tende a "abolir" o poder do capital abrindo o acesso à produção? 

Há pelo menos duas razões para que não o seja em absoluto. 

domingo, 23 de agosto de 2020

O Grito de Justiça de Sacco e Vanzetti Ainda Ecoa.

Edilene Toledo¹

   Há exatos cem anos, em 15 de abril de 1920, durante um assalto a uma fábrica, um contador e um guarda foram assassinados a tiros na cidade de South Braintree, Massachusetts, Estados Unidos. Nicola Sacco, sapateiro, e Bartolomeo Vanzetti, vendedor de peixes, imigrantes italianos e anarquistas, foram responsabilizados pelo duplo homicídio. Ao fim de um processo muito polêmico, os dois foram condenados à morte e executados, na cadeira elétrica, em 23 de agosto de 1927. Os indícios contra eles eram muito frágeis e manipulados. Mesmo quando o verdadeiro autor dos crimes confessou, Sacco e Vanzetti não tiveram direito a revisão do processo e nem clemência. Desde então, eles se tornaram símbolos da luta contra a intolerância e a injustiça e foram lembrados inúmeras vezes em jornais, canções, poesias, filmes e peças de teatro.


   A condenação de Sacco e Vanzetti ocorreu no contexto de uma duríssima campanha contra os trabalhadores organizados e ativistas políticos que o governo dos Estados Unidos desencadeou entre os anos de 1919 e 1921. Era uma resposta, vivida também em muitos outros países, ao ciclo de agitação social global ocorrido a partir de 1917 e em reação às repercussões da Revolução Russa e o temor do avanço das forças de esquerda. Além de milhares de prisões e deportações de centenas de imigrantes, um outro anarquista italiano, Andrea Salsedo, tinha morrido, em circunstâncias misteriosas, caindo da janela de uma delegacia durante um interrogatório. Naqueles anos, mais de 100 sindicalistas da Industrial Workers of the World foram condenados por subversão a 20 anos de prisão.

   Nicola Sacco era do sul da Itália, da região da Puglia, enquanto Bartolomeo Vanzetti era do norte, do Piemonte. Ambos tinham chegado nos Estados Unidos no mesmo período, um em 1908 e outro em 1909, com cerca de 20 anos, com a esperança de melhorar as próprias condições de vida, como outros 5 milhões de italianos entre o final do século XIX e a Primeira Guerra, foram “fazer a América”. A maioria deles empregou-se nas ascendentes indústrias norte-americanas. Mas, para muitos, os Estados Unidos mostraram-se uma terra distante dos sonhos de bem-estar e liberdade que tanto atraíam os imigrantes.

   A radicalização da posição política de Sacco e Vanzetti ocorreu já em solo americano.  Eles se conheceram em 1916 e juntos passaram a fazer parte de um grupo anarquista. Tinham fugido para o México para escapar da convocação para a Primeira Guerra Mundial. A fé anarquista e a oposição à guerra, que caracterizou a ação libertária nas Américas, fizeram deles os alvos ideais da cruzada americana contra os radicais de esquerda.

   Foi também a origem italiana que marcou o destino deles. A retomada da imigração para os Estados Unidos após o fim da guerra acentuou a xenofobia de uma parte da população que considerava alguns grupos imigrantes etnicamente inferiores e inassimiláveis. Os italianos, sobretudo os do sul da Itália, eram acusados de mal-educados, violentos e propensos ao crime. Naqueles anos, linchamentos racistas atingiam os afro-americanos, mas também vitimaram 30 italianos.

   Durante todo o processo, sindicatos e grupos de esquerda iniciaram uma enorme campanha para obter apoio da opinião pública e arrecadação de fundos para a defesa de Sacco e Vanzetti. O drama dos dois trabalhadores provocou comoção e indignação entre os trabalhadores de todo o mundo, sendo um catalisador da identidade de classe. Protestos imponentes se multiplicaram em quase todas as capitais do mundo.

   O impacto sobre o movimento operário mundial foi muito grande, configurando o mais significativo fenômeno de solidariedade internacional do período. Para além da solidariedade étnico-nacional de trabalhadores italianos, a condenação de Sacco e Vanzetti foi sentida como um processo contra a classe operária em todo o mundo, contribuindo para que os trabalhadores se reconhecessem como membros de uma classe transnacional e sujeitos políticos ao longos dos anos 20.

Bartolomeo Vanzetti e Nicola Sacco

   No Brasil, greves, manifestações e comícios de solidariedade ocorreram em vários estados e principalmente no Rio de Janeiro e em São Paulo, onde foram os sindicatos a organizar comitês de Agitação pró Sacco e Vanzetti, com a colaboração de anarquistas e comunistas. Nos dias que antecederam a execução dos anarquistas, a polícia agiu com violência para reprimir a multidão de trabalhadores que tomaram as ruas em bairros operários da cidade de São Paulo, como o Brás e o Ipiranga. Comícios chegaram a ocorrer duas vezes por semana. O jornal anarquista A Plebe noticiou que no dia da execução houve um comício na praça do Patriarca do qual participou “toda a classe operária da capital”. Outros jornais registraram gritos de vivas à memória de Sacco e Vanzetti  e à solidariedade operária.

   Somente 50 anos depois da execução, em 1977, o governador de Massachusetts reabilitou a memória de Sacco e Vanzetti, reconhecendo a inocência e os preconceitos, de várias ordens, que haviam determinado a condenação. Muitos trabalhadores e militantes em todo o mundo esperaram que a morte deles permanecesse como um alerta contra a intolerância e a xenofobia, que, infelizmente, custam a desaparecer e de tanto em tanto reemergem com toda a sua irracionalidade. Antes de morrer, Vanzetti escreveu “Defendi o direito de liberdade de pensamento, inalienável como o direito à vida”.

 ¹ Edilene Toledo é professora do Departamento de História da UNIFESP, Campus Guarulhos.

 Referências:

Coccia, Andrea. Quanto ci mancano Sacco e Vanzetti. Linkiesta, 23 de agosto de 2017.

Fast, Howard. Sacco e Vanzetti. Dois mártires da luta pela liberdade. Rio de Janeiro: Best Seller, 2009.

Franzina, Emilio. Gli italiani al Nuovo Mondo. L´emigrazione italiana in America, 1492-1942. Milão: Mondadori, 1995.

Luconi, Stefano. Sacco e Vanzetti, quando gli italiani erano “bastardi”. Il Manifesto, 22-08-2017.

Moura, Clóvis. Sacco e Vanzetti: o protesto brasileiro. São Paulo: Anita Garibaldi; Fundação Maurício Grabois, 2017.

Fonte: https://lehmt.org/2020/04/21/o-grito-de-justica-de-sacco-e-vanzetti-ainda-ecoa/

Edição: Página 1917.

sexta-feira, 14 de agosto de 2020

Combater o Imperialismo e o Oportunismo: Tarefas Indispensáveis dos Comunistas*

   Neste texto, nos propomos a comentar os pontos principais do artigo de Lenin, de outubro de 1916, O Imperialismo e a Cisão do Socialismo. Em uma conjuntura de amplo predomínio do oportunismo, posição burguesa no movimento operário, na Europa, Lenin escreve um artigo ao mesmo tempo teórico (a partir dos estudos que culminaram no seu livro Imperialismo, Fase Superior do Capitalismo) e militante, analisando a nova etapa, imperialista, do capitalismo mundial e combatendo sem tréguas o oportunismo. No seu artigo, Lenin trata do que chamava então de “a questão fundamental do socialismo contemporâneo”: a saber, “existe uma ligação entre o imperialismo e a vitória monstruosa e abominável que o oportunismo … alcançou sobre o movimento operário na Europa?”.

Lenin discursando no Congresso da Internacional Comunista

   Na conjuntura atual, já faz um longo tempo, também há uma “vitória monstruosa e abominável” do oportunismo e do reformismo no movimento operário e também dentre os (auto)denominados marxistas e comunistas, inclusive a deturpar e mutilar a teoria revolucionária do imperialismo de Lenin. Isso se relaciona à força muito reduzida da posição revolucionária, comunista, tanto em termos partidários quanto na sua influência no movimento operário em todo o mundo. Nos dias de hoje, e também há décadas, o imperialismo domina inteiramente a economia mundial. O texto de Lenin, portanto, ainda traz muitas lições para os comunistas contemporâneos e nos serve ainda hoje de base para realizar a análise concreta da realidade concreta e defender a posição proletária na luta de classes.

 Imperialismo, a fase atual do capitalismo

   Contra a errônea visão do oportunismo de Kautsky (que “define o imperialismo como uma política ‘preferida’ pelo capital financeiro”) presente hoje em quase toda a “esquerda”, de que o imperialismo constitui (apenas) uma política externa agressiva e militar dos países dominantes, Lenin, no capítulo 7 do seu livro, apresenta a “definição o mais breve possível do imperialismo”: “o imperialismo é a fase monopolista do capitalismo”. Por ser uma fase do capitalismo, não poderia deixar de ser “desenvolvimento e continuação direta das características fundamentais” – ainda que de forma contraditória, negando-as – desse modo de produção: concorrência entre os capitais, concentração e centralização de capitais, tendência à queda da taxa de lucro, luta constante para contra-arrestar essas tendências etc. No referido capítulo de O Imperialismo, na sequência dessa definição – que ele afirmava conter o principal, mas achava insuficiente –, Lenin a desdobra nos seus “cinco traços fundamentais”:

“1) a concentração da produção e do capital levada a um grau tão elevado de desenvolvimento que criou os monopólios, os quais desempenham um papel decisivo na vida econômica;

 2) a fusão do capital bancário com o capital industrial e a criação, baseada nesse “capital financeiro” da oligarquia financeira;

 3) a exportação de capitais, diferentemente da exportação de mercadorias, adquire uma importância particularmente grande;

 4) a formação de associações internacionais monopolistas de capitalistas, que partilham o mundo entre si, e

 5) o termo da partilha territorial do mundo entre as potências capitalistas mais importantes”.

   No artigo de outubro de 1916, poucos meses após terminar a redação do seu livro, Lenin reafirma a importância fundamental dos monopólios para a caracterização de uma nova fase histórica do capitalismo: “A substituição da livre concorrência pelo monopólio é o traço econômico fundamental, a essência do imperialismo”. E, mais adiante: “O imperialismo é o capitalismo monopolista. Cada cartel, truste, consórcio, cada banco gigantesco é um monopólio”.

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