Edilene Toledo¹
Há exatos cem anos, em 15 de abril de 1920, durante um
assalto a uma fábrica, um contador e um guarda foram assassinados a tiros na cidade
de South Braintree, Massachusetts, Estados Unidos. Nicola Sacco, sapateiro, e
Bartolomeo Vanzetti, vendedor de peixes, imigrantes italianos e anarquistas,
foram responsabilizados pelo duplo homicídio. Ao fim de um processo muito
polêmico, os dois foram condenados à morte e executados, na cadeira elétrica,
em 23 de agosto de 1927. Os indícios contra eles eram muito frágeis e
manipulados. Mesmo quando o verdadeiro autor dos crimes confessou, Sacco e
Vanzetti não tiveram direito a revisão do processo e nem clemência. Desde
então, eles se tornaram símbolos da luta contra a intolerância e a injustiça e
foram lembrados inúmeras vezes em jornais, canções, poesias, filmes e peças de
teatro.

A condenação de Sacco e Vanzetti ocorreu no contexto
de uma duríssima campanha contra os trabalhadores organizados e ativistas
políticos que o governo dos Estados Unidos desencadeou entre os anos de 1919 e
1921. Era uma resposta, vivida também em muitos outros países, ao ciclo de
agitação social global ocorrido a partir de 1917 e em reação às repercussões da
Revolução Russa e o temor do avanço das forças de esquerda. Além de milhares de
prisões e deportações de centenas de imigrantes, um outro anarquista italiano,
Andrea Salsedo, tinha morrido, em circunstâncias misteriosas, caindo da janela
de uma delegacia durante um interrogatório. Naqueles anos, mais de 100
sindicalistas da Industrial Workers of the World foram condenados por subversão
a 20 anos de prisão.
Nicola Sacco era do sul da Itália, da região da
Puglia, enquanto Bartolomeo Vanzetti era do norte, do Piemonte. Ambos tinham
chegado nos Estados Unidos no mesmo período, um em 1908 e outro em 1909, com
cerca de 20 anos, com a esperança de melhorar as próprias condições de vida,
como outros 5 milhões de italianos entre o final do século XIX e a Primeira
Guerra, foram “fazer a América”. A maioria deles empregou-se nas ascendentes
indústrias norte-americanas. Mas, para muitos, os Estados Unidos mostraram-se
uma terra distante dos sonhos de bem-estar e liberdade que tanto atraíam os
imigrantes.
A radicalização da posição política de Sacco e
Vanzetti ocorreu já em solo americano.
Eles se conheceram em 1916 e juntos passaram a fazer parte de um grupo
anarquista. Tinham fugido para o México para escapar da convocação para a Primeira
Guerra Mundial. A fé anarquista e a oposição à guerra, que caracterizou a ação
libertária nas Américas, fizeram deles os alvos ideais da cruzada americana
contra os radicais de esquerda.
Foi também a origem italiana que marcou o destino
deles. A retomada da imigração para os Estados Unidos após o fim da guerra
acentuou a xenofobia de uma parte da população que considerava alguns grupos
imigrantes etnicamente inferiores e inassimiláveis. Os italianos, sobretudo os
do sul da Itália, eram acusados de mal-educados, violentos e propensos ao
crime. Naqueles anos, linchamentos racistas atingiam os afro-americanos, mas
também vitimaram 30 italianos.
Durante todo o processo, sindicatos e grupos de
esquerda iniciaram uma enorme campanha para obter apoio da opinião pública e
arrecadação de fundos para a defesa de Sacco e Vanzetti. O drama dos dois
trabalhadores provocou comoção e indignação entre os trabalhadores de todo o
mundo, sendo um catalisador da identidade de classe. Protestos imponentes se
multiplicaram em quase todas as capitais do mundo.
O impacto sobre o movimento operário mundial foi muito
grande, configurando o mais significativo fenômeno de solidariedade
internacional do período. Para além da solidariedade étnico-nacional de
trabalhadores italianos, a condenação de Sacco e Vanzetti foi sentida como um
processo contra a classe operária em todo o mundo, contribuindo para que os
trabalhadores se reconhecessem como membros de uma classe transnacional e
sujeitos políticos ao longos dos anos 20.
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| Bartolomeo Vanzetti e Nicola Sacco |
No Brasil, greves, manifestações e comícios de
solidariedade ocorreram em vários estados e principalmente no Rio de Janeiro e
em São Paulo, onde foram os sindicatos a organizar comitês de Agitação pró
Sacco e Vanzetti, com a colaboração de anarquistas e comunistas. Nos dias que
antecederam a execução dos anarquistas, a polícia agiu com violência para
reprimir a multidão de trabalhadores que tomaram as ruas em bairros operários
da cidade de São Paulo, como o Brás e o Ipiranga. Comícios chegaram a ocorrer
duas vezes por semana. O jornal anarquista A Plebe noticiou que no dia da
execução houve um comício na praça do Patriarca do qual participou “toda a
classe operária da capital”. Outros jornais registraram gritos de vivas à
memória de Sacco e Vanzetti e à solidariedade
operária.
Somente 50 anos depois da execução, em 1977, o
governador de Massachusetts reabilitou a memória de Sacco e Vanzetti,
reconhecendo a inocência e os preconceitos, de várias ordens, que haviam
determinado a condenação. Muitos trabalhadores e militantes em todo o mundo
esperaram que a morte deles permanecesse como um alerta contra a intolerância e
a xenofobia, que, infelizmente, custam a desaparecer e de tanto em tanto
reemergem com toda a sua irracionalidade. Antes de morrer, Vanzetti escreveu
“Defendi o direito de liberdade de pensamento, inalienável como o direito à
vida”.
¹ Edilene Toledo é professora do Departamento de
História da UNIFESP, Campus Guarulhos.
Referências:
Coccia, Andrea. Quanto ci mancano Sacco e Vanzetti.
Linkiesta, 23 de agosto de 2017.
Fast, Howard. Sacco e Vanzetti. Dois mártires da luta
pela liberdade. Rio de Janeiro: Best Seller, 2009.
Franzina, Emilio. Gli italiani al Nuovo Mondo.
L´emigrazione italiana in America, 1492-1942. Milão: Mondadori, 1995.
Luconi, Stefano. Sacco e Vanzetti, quando gli italiani
erano “bastardi”. Il Manifesto, 22-08-2017.
Moura, Clóvis. Sacco e Vanzetti: o protesto
brasileiro. São Paulo: Anita Garibaldi; Fundação Maurício Grabois, 2017.
Fonte: https://lehmt.org/2020/04/21/o-grito-de-justica-de-sacco-e-vanzetti-ainda-ecoa/
Edição: Página 1917.