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terça-feira, 21 de abril de 2020

Saudações aos Comunistas Italianos, Franceses e Alemães

Lenin*
Outubro de 1919.


São, de fato, escassas, as notícias que recebemos do estrangeiro. O bloqueio organizado pelas feras imperialistas está em pleno andamento; a violência das maiores potências mundiais voltou-se contra nós, na esperança de repor a ordem dos exploradores. E esta fúria bestial dos capitalistas mundiais e da Rússia encontra-se camuflada, desnecessário será dizer, em frases que falam do sublime significado de “democracia”! O campo explorador é fiel a si mesmo; retrata a democracia burguesa como sendo a “democracia” em geral. E todos os filisteus e pequeno-burgueses, desde Friedrich Adler, Karl Kautsky, à maioria dos líderes do Independente [1] Partido Social Democrata da Alemanha (ou seja, independente do proletariado revolucionário, mas dependente dos pequeno-burgueses), juntaram-se ao coro.
Lenin
Contudo, apesar das raras notícias do exterior recebidas na Rússia, grande é a alegria com que seguimos o avanço gigantesco, universal, do comunismo entre os operários de todos os países do mundo e o rompimento que essas massas fizeram com os líderes corruptos e traiçoeiros que, de Scheidemann a Kautsky, se juntaram à burguesia.

Tudo o que sabemos do Partido Italiano é que o seu Congresso decidiu, por uma grande maioria, filiar-se na Terceira Internacional e adotar o programa da ditadura do proletariado. Apesar disso, o Partido Socialista Italiano, que, na prática, se alinhou com o comunismo, mantém, ainda, para nosso pesar, o seu nome antigo. Calorosas saudações aos trabalhadores italianos e ao seu partido!

Tudo o que sabemos da França é que, só na cidade de Paris, já existem dois jornais comunistas: L’Internationale, editado por Raymond Péricat, e Le Titre censuré, editado por Georges Anquetil. Uma série de organizações proletárias já se encontram filiadas na Terceira Internacional. As simpatias das massas operárias estão, sem dúvida, do lado do comunismo e do poder soviético.

Dos comunistas alemães, apenas sabemos que jornais comunistas são publicados em várias cidades. Muitos levam o nome Die Rote Fahne [Nota do Tradutor: Bandeira Vermelha]. O berlinense Rote Fahne, uma publicação ilegal, luta heroicamente contra os verdugos Scheidemann e Noskes, os algozes que se submetem às ordens da burguesia, tal como os independentes o fazem através das palavras e da sua propaganda “ideológica” (ideologia pequeno-burguesa).

A luta heroica do Die Rote Fahne, o jornal comunista berlinense, exige toda a nossa admiração. Vemos, finalmente, na Alemanha, socialistas honestos e sinceros, que, apesar de toda a perseguição, apesar do assassinato dos seus melhores líderes, permanecem firmes e inflexíveis! Vemos, finalmente, na Alemanha, trabalhadores comunistas travando uma luta heroica que merece, de fato, a designação de “revolucionária”! Surgiu, finalmente, na Alemanha, entre as fileiras das massas proletárias, uma força para quem as palavras “revolução proletária” se tornaram uma verdade!

Saudações aos Comunistas Alemães!

Os Scheidemann e os Kautsky, os Henners e os Friedrich Adlers, apesar da grande diferença que possa existir entre estes senhores, no sentido da integridade pessoal, todos revelaram ser, da mesma forma, pequeno-burgueses e os mais vergonhosos traidores do socialismo, defensores da burguesia. Apesar de em 1912 todos eles terem participado na elaboração e na assinatura do Manifesto de Basileia “sobre a guerra imperialista que se aproxima”, e de todos eles terem, nessa altura, falado de “revolução proletária”, todos provaram, na prática, ser pequeno-burgueses democratas e cavaleiros de ilusões filistino-republicanas, democrático-burguesas, cúmplices da burguesia contrarrevolucionária.

segunda-feira, 20 de abril de 2020

Que é o social-chauvinismo? *

   Lenin**
   
   O social-chauvinismo é a defesa da ideia de «defesa da pátria» na presente guerra. Dessa ideia decorrem, seguidamente, a renúncia à luta de classes durante a guerra, a votação dos créditos de guerra, etc. De facto os sociais-chauvinistas praticam uma política antiproletária, burguesa, pois de fato preconizam não a «defesa da pátria» no sentido de luta contra a opressão estrangeira, mas o «direito» de tais ou tais «grandes» potências de pilhar as colônias e de oprimir outros povos. Os sociais-chauvinistas repetem a mistificação burguesa do povo segundo a qual a guerra é travada pela defesa da liberdade e da existência das nações, e passam assim para o lado da burguesia contra o proletariado. São sociais-chauvinistas tanto aqueles que justificam e embelezam os governos e a burguesia de um dos grupos de potências beligerantes como aqueles que, a exemplo de Kautsky, reconhecem aos socialistas de todas as potências beligerantes igual direito a «defender a pátria». O social-chauvinismo, que é de fato a defesa dos privilégios, das vantagens, das pilhagens e das violências da «sua» burguesia (ou de qualquer burguesia em geral) imperialista, constitui uma completa traição a todas as convicções socialistas e à resolução do congresso socialista internacional de Basileia.***
Lenin fala aos delegados da Internacional Comunista. 
O Manifesto de Basileia

   O manifesto sobre a guerra adotado por unanimidade em 1912 em Basileia tem em vista precisamente a guerra entre a Inglaterra e a Alemanha com os seus atuais aliados, que eclodiu em 1914. O manifesto declara expressamente que nenhum interesse popular pode justificar semelhante guerra, conduzida «pelo lucro dos capitalistas e pelas vantagens das dinastias» com base na política imperialista e espoliadora das grandes potências. O manifesto declara expressamente que a guerra é perigosa «para os governos» (todos sem excepção), assinala o seu medo da «revolução proletária», aponta da maneira mais definida o exemplo da Comuna de 1871 e o de Outubro-Dezembro de 1905, isto é, o exemplo da revolução e da guerra civil. Deste modo, o manifesto de Basileia estabelece precisamente para a presente guerra a táctica da luta revolucionária dos operários à escala internacional contra os seus governos, a táctica da revolução proletária. O manifesto de Basileia repete as palavras da resolução de Estugarda, dizendo que, em caso de eclosão da guerra, os socialistas deviam aproveitar a «crise econômica e política» por ela criada para «acelerar a queda do capitalismo», isto é, utilizar as dificuldades criadas pela guerra aos governos e a indignação das massas para a revolução socialista.

   A política dos sociais-chauvinistas, a justificação por eles da guerra de pontos de vista libertadores burgueses, a admissão por eles da «defesa da pátria», a votação a favor dos créditos, a entrada nos ministérios, etc., etc., são uma traição direta ao socialismo, só explicável, como veremos adiante, pela vitória do oportunismo e da política operária nacional-liberal no seio da maioria dos partidos europeus.

domingo, 19 de abril de 2020

Qual é a Atitude dos Partidos Burgueses e do Partido Operário Frente às Eleições para a Duma?*

   Lenin** 
   
   Os jornais estão cheios de informações sobre os preparativos eleitorais. Quase todos os dias aparecem «editais» do governo excluindo do censo novos grupos de cidadãos suspeitos, ou notícias sobre novas perseguições, a proibição de reuniões, a suspensão de jornais e a prisão de supostos participantes ou candidatos. As centúrias negras(1) levantaram a cabeça. A sua vozearia, os seus alaridos são mais insolentes do que nunca.
Lenin e Kamenev
   Os partidos que não agradam ao governo também se preparam para as eleições. Estes partidos estão certos, e com toda a razão, de que a massa dos eleitores saberá manifestar-se, expressar através das eleições a sua verdadeira convicção, apesar de todas as astúcias, de todas as fraudes e de todas as perseguições, em pequena e em grande escala, dirigidas contra os eleitores. Esta certeza baseia-se cm que as perseguições mais furiosas e os atentados mais escandalosos subtrairão, quando muito, umas centenas, uns milhares e até talvez dezenas de milhares de votos em toda a Rússia, mas nem por isso mudarão o estado de espírito das massas nem a sua atitude frente ao governo. Poder-se-á riscar das listas, por exemplo, 10.000 ou 20.000 eleitores de Petersburgo, contudo a massa dos 150.000 eleitores da capital não fará senão conter-se, retirar-se em ordem, acautelar-se, aquietar-se temporariamente, mas não desaparecerá nem mudará o seu estado de espírito geral, e se mudar, não será em favor do governo. Por isso, enquanto não se modificar radicalmente a lei eleitoral, enquanto não forem definitivamente calcados todos os restos de legalidade eleitoral (ainda podem ser calcados recorrendo-se à prisão sistemática de participantes: de Stolypine pode-se esperar o pior!) é inegável que o estado de espírito das massas decidirá os resultados das eleições, e, naturalmente, não a favor do governo nem das suas centúrias negras.

sábado, 18 de abril de 2020

As Lições da Insurreição de Moscou*

   Lenin**


   O livro Moscou em Dezembro de 1905 não podia ter saído com maior oportunidade. Uma tarefa vital do partido operário é assimilar a experiência da insurreição de Dezembro. É de lamentar que este livro seja uma barrica de mel com uma colher de alcatrão: o material é extremamente interessante, apesar de incompleto, mas as conclusões são incrivelmente superficiais, incrivelmente vulgares. Destas conclusões falaremos à parte(1) por agora voltaremos à questão política atual, às lições da insurreição de Moscou.


   As formas principais do movimento de Dezembro em Moscou foram a greve pacífica e as manifestações. A enorme maioria da massa operária participou ativamente apenas nestas duas formas de luta. Mas precisamente a ação de Dezembro em Moscou demonstrou com evidência que a greve geral, como forma independente e principal de luta, se tornou obsoleta e que o movimento ultrapassa, com uma força espontânea e irresistível, este quadro estreito e gera a forma suprema da luta, a insurreição.

  Todos os partidos revolucionários, todos os sindicatos de Moscou, ao declarar a greve, tinham consciência e até mesmo sentiam a inevitabilidade da sua transformação em insurreição. O Soviete dos Deputados Operários decidiu em 6 de dezembro «esforçar-se por transformar a greve em insurreição armada». Mas, de fato, nenhuma das organizações estava preparada para isso, mesmo o Conselho de coligação dos grupos de combate(2) falava (em 9 de dezembro!) de insurreição como de algo distante, e a luta de rua passava indubitavelmente por cima da sua cabeça e sem a sua participação. As organizações atrasaram-se em relação ao crescimento e à envergadura do movimento.

   A greve ia-se transformando em insurreição, antes de mais, sob a pressão das condições objetivas, criadas depois de outubro(3). Já não era possível surpreender o governo por meio de uma greve geral, ele já organizara a contra-revolução, preparada para ações militares. Tanto o curso geral da revolução russa depois de outubro como a sucessão dos acontecimentos em Moscovo nas jornadas de dezembro confirmaram de modo admirável uma das profundas teses de Marx: a revolução avança porque cria uma contra-revolução forte e unida, ou seja, obriga o inimigo a recorrer a meios de defesa cada vez mais extremos e elabora assim meios de ataque cada vez mais poderosos(4).

- 7 e 8 de dezembro: greve pacífica, manifestações pacíficas de massas 8 de dezembro à noite: cerco do Aquário(5). 9 de dezembro, durante o dia: os dragões atiram contra a multidão na Praça Strastnáia. À noite, esmagamento da casa de Fídler(6). A exaltação cresce. A multidão não organizada das ruas começa a erguer de modo completamente espontâneo e ainda insegura-mente as primeiras barricadas.

- 10 de dezembro: a artilharia abre fogo contra as barricadas e contra a multidão das ruas. A construção de barricadas torna-se uma ação decidida, não isolada, mas indubitavelmente de massas. Toda a população está nas ruas; toda a cidade se cobre de uma rede de barricadas nos principais centros. Durante vários dias desenvolve-se uma tenaz luta de guerrilhas entre os grupos de combate e as tropas, luta que esgota os soldados e obriga Dubássov a implorar reforços. Só em 15 de dezembro as forças governamentais conseguem uma preponderância decisiva, e a 17 o regimento Semiónovski(7) esmaga o bairro de Présnia, último baluarte da insurreição.

  Da greve e das manifestações às barricadas isoladas. Das barricadas isoladas à construção em massa de barricadas e à luta de ruas contra as tropas. Por cima da cabeça das organizações, a luta proletária de massas passou da greve à insurreição. É nisso que reside a grande aquisição histórica da revolução russa, alcançada em dezembro de 1905, aquisição alcançada, como todas as precedentes, à custa de sacrifícios imensos.*** Da greve política geral o movimento elevou-se a um grau superior. Forçou a reação a ir até ao fim na sua resistência, aproximando assim em proporções gigantescas o momento em que a revolução também irá até ao fim no emprego dos meios ofensivos. A reação não pode ir mais além do que arrasar com artilharia as barricadas, as casas e a multidão das ruas. A revolução pode ainda ir mais além do que os grupos de combate de Moscovo, pode ir muito, muito mais além, tanto em amplitude como em profundidade. E a revolução avançou muito desde dezembro. A base da crise revolucionária tornou-se incomensuravelmente mais ampla; agora é preciso afiar mais a lâmina.

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