Lenin (dezembro/1918)

Os
escritores burgueses escreveram e escrevem montanhas de papel,
elogiando a concorrência, a iniciativa privada e outros magníficos
valores e encantos dos capitalistas e da ordem capitalista.
Acusavam-se os socialistas de não quererem compreender o significado
destes valores e de não terem em conta a “natureza humana”. Mas,
na realidade, o capitalismo substituiu há muito a pequena produção
mercantil independente, em que a concorrência podia, em proporções
mais ou menos amplas, desenvolver o espírito empreendedor, a
energia, a iniciativa ousada, pela grande e muito grande produção
fabril, pelas empresas por ações, pelos consórcios e outros
monopólios. A concorrência significa, sob tal capitalismo, o
esmagamento inauditamente feroz do espírito empreendedor, da
energia, da iniciativa ousada da massa da população, da sua
gigantesca maioria, de noventa e nove por cento dos trabalhadores,
significa também a substituição da emulação pela fraude
financeira, pelo nepotismo, pelo servilismo nos degraus mais elevados
da escala social.
O
socialismo não só não extingue a emulação como, pelo contrário,
cria pela primeira vez a possibilidade de a aplicar em escala
verdadeiramente ampla, verdadeiramente de massas, de arrastar
verdadeiramente a maioria dos trabalhadores para o campo de um
trabalho onde podem revelar-se, desenvolver as suas capacidades,
mostrar os talentos que no povo são uma fonte inesgotável e que o
capitalismo esmagava, sufocava e estrangulava aos milhares e aos
milhões.
A
nossa tarefa agora, quando um governo socialista está no poder, é
organizar a emulação.
[…]
Naturalmente, esta substituição do trabalho forçado pelo trabalho
para si próprio, a maior na história da humanidade, não pode
realizar-se sem atritos, dificuldades, conflitos, sem violência em
relação aos parasitas inveterados e seus lacaios. A este respeito,
nenhum operário tem ilusões: temperados por longos e longos anos de
trabalhos forçados para os exploradores, de inúmeros vexames e
ultrajes da parte deles, temperados pelas duras necessidades, os
operários e os camponeses pobres sabem que é preciso tempo para
quebrar a resistência dos exploradores. Os operários e camponeses
não estão de modo algum contaminados pelas ilusões sentimentais
dos senhores intelectuaizinhos, de toda essa porcaria dos
novojiznistas e outros, que “gritaram” contra os capitalistas até
enrouquecer, que “gesticularam” contra eles, que os fulminaram,
para logo começarem a chorar e a portar-se como cãezinhos
espancados quando se chega aos fatos, à realização das ameaças, à
execução na prática do afastamento dos capitalistas.
[...] A
grande substituição do trabalho forçado pelo trabalho para si
próprio, pelo trabalho organizado planificadamente numa escala
gigantesca, nacional (e, em certa medida, também internacional,
mundial) exige também — além das medidas “militares” de
repressão da resistência dos exploradores — imensos esforços
organizativos, organizadores, por parte do proletariado e dos
camponeses pobres. A tarefa organizativa entrelaça-se num todo
indissolúvel com as tarefas da implacável repressão militar dos
escravistas (capitalistas) de ontem e a matilha dos seus lacaios - os
senhores intelectuais burgueses. Nós sempre fomos os
organizadores e os chefes, nós comandávamos — assim falam e
pensam os escravistas de ontem e os seus agentes entre a
intelectualidade — queremos continuar assim, não nos poremos a
escutar o “povinho”, os operários e camponeses, não nos
submeteremos a eles, converteremos os conhecimentos em armas para
defender os privilégios do saco de dinheiro e o domínio do capital
sobre o povo.
[…]
Agora uma das mais importantes tarefas, senão a mais importante, é
desenvolver tão amplamente quanto possível esta iniciativa
independente dos operários e de todos os trabalhadores e explorados
em geral na obra criadora do trabalho organizativo. Custe o que
custar é preciso destruir o velho preconceito absurdo, selvagem,
infame e odioso, de que só as chamadas “classes superiores”, só
os ricos ou os que passaram pela escola das classes ricas, podem
administrar o Estado, dirigir a construção organizativa da
sociedade socialista.
Isto
é um preconceito. É mantido por uma rotina podre e fossilizada, por
um hábito servil e, ainda mais, pela imunda cupidez dos
capitalistas, interessados em administrar saqueando e saquear
administrando. Não. Os operários não esquecerão nem por um minuto
sequer que necessitam da força do saber. O zelo invulgar que os
operários manifestam em se instruir, que manifestam exactamente
agora, demonstra que nesse sentido não há nem pode haver erro no
seio do proletariado. Mas o trabalho de organização está também
ao alcance do operário e do camponês comum, que sabe ler e
escrever, que conhece os homens e tem experiência prática. Entre o
“povinho”, de que falam com desdém e arrogância os intelectuais
burgueses, há uma massa de pessoas destas. Na classe operária e
no campesinato há uma fonte ainda intacta e uma fonte riquíssima
desses talentos.
[…]
O registro e o controle, que são necessários à transição
para o socialismo, só podem ser obra das massas. Só uma colaboração
voluntária e conscienciosa das massas de operários e camponeses,
realizada com entusiasmo revolucionário, no registo e no controle
dos ricos, dos vigaristas, dos parasitas, dos arruaceiros, pode
vencer estas sobrevivências da maldita sociedade capitalista, esses
detritos da humanidade, esses membros irremissivelmente podres e
mortos, esse contágio, essa peste, essa chaga que o capitalismo
deixou em herança ao socialismo.
[…]
Os ricos e os vigaristas são as duas faces de uma mesma medalha,
são as duas categorias principais de parasitas alimentados pelo
capitalismo, são os principais inimigos do socialismo, estes
inimigos devem ser submetidos à particular vigilância de toda a
população, é preciso dar cabo deles implacavelmente à menor
infração às regras e às leis da sociedade socialista. Toda a
fraqueza, toda a vacilação, todo o sentimentalismo constituiriam
neste aspecto o maior crime contra o socialismo.
[…]
A Comuna de Paris mostrou um grande modelo de combinação da
iniciativa, da independência, da liberdade de movimento, da energia
do impulso vindo de baixo — com um centralismo voluntário alheio
aos estereótipos. Os nossos Sovietes seguem o mesmo caminho. Mas
ainda são "tímidos", ainda não se desenvolveram, ainda não
“entraram” no seu trabalho novo, grande e criador de construção
de uma ordem socialista. É preciso que os Sovietes lancem mãos à
obra com mais audácia e iniciativa. É preciso que cada "comuna" —
cada fábrica, cada aldeia, cada sociedade de consumo, cada comité
de abastecimento - actue em emulação uns com os outros, como
organizadores práticos do registro e do controle do trabalho e da
distribuição dos produtos. O programa deste registro e controle é
simples, claro e compreensível para todos: que cada um tenha pão,
que todos usem calçado sólido e boa roupa, tenham uma casa quente,
trabalhem conscienciosamente e que nem um só vigarista (incluindo os
que fogem do trabalho) passeie em liberdade, mas esteja na prisão ou
cumpra uma pena de trabalhos forçados do tipo mais duro, que nenhum
rico, que infrinja as regras e leis do socialismo, possa escapar à
sorte dos vigaristas, que por justiça deve ser a do rico. “Quem
não trabalha não come” — eis o mandamento prático do
socialismo.
Fonte: V.I. Lenine; Obras Escolhidas; Vol II; p.442; Alfa-Omega.
Edição: Página 1917