Nildo Ouriques
19/06/2024
"Há aqueles que alimentam as esperanças de que o desgaste das pesquisas (sempre elas!) levem finalmente o governo a rever a política econômica e mudar de rumo, tomando distância da “austeridade”, agora considerada como a mãe do fascismo por uma novidade italiana. Outros, subitamente, se definem “por princípio” na “oposição de esquerda”, apelando para uma fuga do real de natureza doutrinária embora não vacilem na piscadela generosa para a agenda dos ministros identitários (Silvio Almeida, Anielle Franco, Cida Gonçalves…) mas antecipam que estarão prontos para apoiar o governo em caso de necessidade extrema."
É costume nas filas da esquerda liberal inocentar Lula e culpar seus ministros pelos “erros” nas políticas públicas. A ilusão de que a vitória de Lula era condição para derrotar o “fascismo”, barrar o “neoliberalismo” (seja lá o que isso significa!), tomar um fôlego e retomar a iniciativa política foi perdendo aderência após 6 meses de governo. Naquele momento, o encanto e o oportunismo de todos aqueles que votaram em Lula mudaram de direção para não perder a linha: começou a fase do ataque aos ministros.
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Camilo Santana, por exemplo, foi o primeiro a ganhar a pecha de office boy da Fundação Lehmman porque a sensibilidade da pequena burguesia universitária semi-militante tem certa influência nos sindicatos e partidos políticos, que, por sua vez, não produzem teoria. Em consequência, importam das universidades os bordões destinados a simular a luta e justificar a impotência do governo diante da classe dominante na forma de apelos morais completamente impotentes. Assim, o ministro da Educação segue sob fogo cruzado de todo universitário digno de ser chamado militante. O Programa Pé de Meia é menos que caridade católica, mas goza de simpatia silenciosa nas filas da esquerda liberal porque há que fazer algo para os pobres que abandonam a escola aqui e agora, dizem com aquela seriedade dos que carregam alguma culpa na alma.
A despeito do perfil pra lá de baixo, a verdade é que Luciana Santos, ministra de Ciência e Tecnologia, não tem sido alvo da crítica, embora o raquitismo da pasta revele de maneira eloquente não somente a dependência científica e tecnológica do país, mas, sobretudo, a completa prostração do governo numa área estratégica para afirmação da soberania e melhoria das condições de trabalho do povo. Ocorre que a agência Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP), por exemplo, é um órgão que sempre nutre esperanças de conseguir algum nesse deserto do real…
De igual modo, a “crítica” também não alcançou outros personagens menos afeitos à condição de classe dos universitários, como por exemplo, Carlos Henrique Fávero, a quem Lula já considerou com toda razão, o “ministro mais feliz” de seu governo. Não há dúvidas a respeito, basta ver o financiamento do Banco do Brasil – o festejado Plano Safra – considerado pelo presidente como o mais vultuoso de nossa história. O ministro Fávero, representante do latifúndio sorri, mas não agradece, afinal não deixa de defender seus interesses de classe, ao contrário da esquerda liberal, para a qual, a consciência de classe sequer figura como um valor.
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