Índice de Seções

sábado, 3 de junho de 2023

O FMI e os Seus Órfãos Ideológicos

Álvaro García Linera*

07/05/23




Houve um tempo em que as "recomendações" do FMI sobre como reorganizar a economia eram lidas, defendidas e executadas como se fossem divinamente mandatadas. Eram os anos 90 do século passado quando, de cada estudo dos rumos da economia mundial ou acordo alcançado com este ou aquele país, não só emanava um otimismo histórico substancial com o que se propunha, como também era acompanhado por uma difusão colossal, categórica e eficiente, que ia de ministros da economia a parlamentares; assessores econômicos de governos; renomados empresários locais; universidades de prestígio a comentaristas de televisão e jornais; acadêmicos a comentadores de café, que lambiam os lábios a cada frase, a cada dado, a cada sugestão dessa organização internacional.

Eram os tempos do "grande consenso social" tecido por uma profusa rede de opinião pública dedicada a consentir que os sacrifícios coletivos da perda de direitos, da expropriação de bens públicos e do abandono estatal, seriam redimidos com o brilhante sucesso individual de se tornar empresário, acionista ou diretor de empresa. Privatizar tudo, desproteger tudo e deixar que o livre mercado cuidasse do resto foram os credos fundadores de um novo mundo de empreendedores, que imediatamente os clérigos dessa religião acompanharam, no meio de memoriais e incensos, com frases ocas como "encolher o Estado para ampliar a nação", "país dos vencedores", "distribuição a conta-gotas" ou "fim da história".

Mas, no alvorecer do século XXI, tudo começou a fraturar-se. A pobreza, escondida sob o tapete do "empreendedorismo", saltou pelo ar. Desigualdades brutais quebraram consensos e o livre mercado correu a ajoelhar-se diante do Estado para exigir resgates financeiros ou subsídios; primeiro, diante da crise das hipotecas subprime; depois, frente ao grande confinamento da COVID-19; depois, diante do poder produtivo da China; depois, diante do aumento do preço dos combustíveis; depois, diante de falências bancárias; depois, face às alterações climáticas. A excecionalidade tornou-se a regra.

E agora acontece que, desse grande princípio ordenador supremo do capitalismo tardio, o "livre mercado", não resta nada além da nostalgia. Em 2020, o Estado salvou as empresas e bolsas de valores das grandes economias do Norte. O comércio mundial e o capital transfronteiriço abrandaram estruturalmente o seu crescimento. Os subsídios à energia, aos alimentos e ao consumo deslocaram a livre oferta e a procura. A "segurança nacional" ou o expansionismo geopolítico mataram a lei da oferta e da procura para definir os preços dos combustíveis, das redes de telecomunicações, dos microprocessadores ou da transição energética. Europeus e norte-americanos recompensam com dinheiro público empresários que retraem as suas cadeias de valor para cada país e punem a eficiência da externalização de custos. O globalismo está a ser substituído pelo nacionalismo econômico e pela geopolítica.

sexta-feira, 2 de junho de 2023

O KKE Entregou Carta de Protesto à Embaixada Vezezuelana

Uma delegação do KKE, chefiada pelo eurodepudado Lefteris Nikolaou-Alavanos e Aris Evangelidis , membro da Seção de Relações Internacionais do CC do KKE, visitou a embaixada venezuelana em Atenas na sexta-feira, 26/05, e se reuniu com o Encarregado de Negócios Freddy Jesus Fernandes Torres , a fim de entregar uma carta de protesto ao governo venezuelano condenando a intensificação do ataque anticomunista contra o Partido Comunista da Venezuela.


A carta da Seção de Relações Internacionais do CC do KKE afirma:

“O Partido Comunista da Grécia (KKE) acompanhou os acontecimentos na Venezuela com muita atenção. Expressa sua constante solidariedade com o povo venezuelano, condena as sanções e agressões imperialistas e denuncia inequivocamente a tentativa de golpe do fantoche imperialista Juan Guaidó. 

Ao mesmo tempo, nos últimos meses, observamos com preocupação o desenvolvimento de uma campanha difamatória e anticomunista contra o Partido Comunista da Venezuela (PCV) por parte da direção do partido do governo, PSUV. Um processo que todos os seus elementos indicam uma escalada no curto prazo. O que se propõe é uma inaceitável intervenção judicial nos assuntos internos do PCV, apontando mesmo para a sua ilegalização.

Com esta carta, pedimos para transmitir nosso protesto enérgico ao governo venezuelano e ao presidente Nicolás Maduro, bem como nossa exigência de que todas as tentativas de criminalizar e proibir o PCV e sua liderança eleita desde seu recente XVI Congresso sejam interrompidas imediatamente.

O KKE, juntando-se às dezenas de Partidos Comunistas e Operários a nível internacional, manifesta a sua solidariedade internacionalista ao PCV e declara que se oporá com todas as suas forças a qualquer tipo de perseguição anticomunista”.

A delegação do KKE, juntamente com a carta de protesto, entregou o Comunicado Conjunto dos Partidos Comunistas e Operários, assinado até agora por 53 partidos de todo o mundo.

Fonte: https://inter.kke.gr/es/articles/KKE-Entrego-una-carta-de-protesta-a-la-embajada-de-Venezuela/

Edição: Página 1917



quarta-feira, 31 de maio de 2023

Liberdade para Lina!

Anti-fascistas condenados à prisão na Alemanha 

Foto: Sebastian Willnow

Lina, uma jovem de 28 anos, foi condenada a cinco anos e três meses de prisão por fundar uma organização de auto-defesa contra os bandos nazistas que infestam a Alemanha. No mesmo processso, outros três militantes foram sentenciados a três anos de prisão cada um. O grupo foi responsabilizado por uma série de ataques, entre 2018 e 2019, contra neonazistas nos estados da Turíngia e Saxônia que resultaram em 13 feridos. 

Dezenas de pessoas que assistiam ao julgamento protestaram no interior do tribunal aplaudindo Lina e exibindo mensagens como "Libertem todos os Antifascistas". Do lado de fora centenas de populares protestaram contra a condenção, acusando o tribunal de parcialidade e de fazer um julgamento político, além de protegerem os criminosos nazifascistas.

Os políticos burgueses do Partido Liberal-Democrático e os Sociais-Democratas apoiaram a condenação, com o argumento cínico de que "não existe espaço para justiceiros na democracia", enquanto fazem vista grossa para os crimes cometidos pelos bandos nazistas. Esses hipócritas não abrem mão de contar com o fascismo e suas bestas-fera para usá-los em caso de necessidade, ou seja, contra insurreições populares que de alguma forma ameacem o capitalismo.

Por sua vez, a mídia burguesa alemã comparou a organizção de Lina com as primeiras ações do antigo grupo guerrilheiro Fração do Exército Vermelho (RAF, sigla para Rote Armee Fraktion), também conhecido como a Gangue Baader-Meinhof, responsável por vários atentados terroristas na Alemanha entre 1970 e 1980.

Ativistas de esquerda convocaram a realização de protestos em Dresden e Leipzig para o próximo sábado, eles afirmam que Lina e seus companheiros foram transformados em bodes expiatórios e pintados falsamente como terroristas de esquerda tanto pela mídia quanto pelos governantes alemães.








domingo, 28 de maio de 2023

A “Plataforma Mundial Anti-Imperialista” — oportunistas em trajes “anti-imperialistas”

Em Defesa do Comunismo*

11/05/2023

Na Primeira Guerra Mundial imperialista, a separação organizacional dos comunistas dos social-chauvinistas foi o pré-requisito essencial para poder travar a luta contra a guerra e o domínio do capital. Hoje enfrentamos uma situação semelhante internacionalmente.

A Quinta-coluna e seus disfarces.

A “Plataforma Mundial Anti-Imperialista” — oportunistas em trajes “anti-imperialistas”

Alguns partidos que se autodenominam comunistas acreditam que se deve ficar do lado de uma das facções concorrentes na guerra.

6 de maio de 2023 — Comissão Internacional da Organização Comunista (KO – Alemanha). Publicado em https://kommunistische.org/internationalismus/die-world-anti-imperialist-platform-opportunisten-im-antiimperialistischen-gewand/.

A eclosão da guerra na Ucrânia expôs implacavelmente a falta de consenso dentro do movimento comunista internacional. Por um lado, alguns partidos que se autodenominam comunistas acreditam que se deve ficar do lado de uma das facções concorrentes na guerra. Por exemplo, o Partido Comunista Espanhol (PCE) está atualmente envolvido como parte da coalizão Esquerda Unida (IU) no governo da Espanha - um governo envolvido na guerra na Ucrânia e que enviu uma grande quantidade de armamento para a Ucrânia. Por outro lado, existe toda uma gama de partidos que apoiam a invasão russa da Ucrânia e assumem a propaganda do Estado russo (por exemplo, a alegada "desnazificação" da Ucrânia) para justificar a guerra.

Esta posição de social-chauvinismo e oportunismo não é nova - é a mesma já apresentada pelos oportunistas da Segunda Internacional durante a Primeira Guerra Mundial.

Isso se opõe à posição da corrente leninista do movimento comunista mundial: a classe trabalhadora deve desenvolver sua própria ação independente e a tarefa dos comunistas é construir seu próprio partido.

A parte dos partidos oportunistas que se aliam à China e à Rússia nos conflitos imperialistas globais encontra agora uma expressão organizativa a nível internacional: a chamada Plataforma Mundial Anti-Imperialista (PMAI) [1], uma rede em que várias organizações se uniram pela primeira vez em Paris em maio passado e pintaram um quadro muito heterogêneo: uma multidão de partidos e organizações que cobrem um amplo espectro do “comunista” ao “nacional-patriótico”. Existem partidos que também se organizam no Encontro Internacional de Partidos Comunistas e Operários (EIPCO) [2] , como o PC do Líbano, ou o Partido Comunista dos Trabalhadores da Rússia, que se recusou a assinar a declaração conjunta condenando a guerra interimperialista já em fevereiro de 2022. Existem organizações abertamente nacionalistas, como a Vanguardia Española da Espanha e a Vanguardia Venezolana da Venezuela – e também há partidos abertamente social-democratas, como o PSUV, partido do governo venezuelano.

Nem todas as partes que participaram ou já participaram das reuniões estão entre os signatários da primeira convocação e não está claro quantos fazem parte da plataforma e com que nível de engajamento. No entanto, o objetivo das organizações reformistas não é criar estruturas estáveis ​​e centralizadas, ou seja, estruturas com unidade ideológica e eficácia na ação. Essas conexões frouxas, nas quais várias organizações podem ser incorporadas e desmembradas sem cumprir critérios reconhecíveis, têm sua respectiva função para pequenas e grandes organizações: servem como vitrines para as pequenas organizações, aumentando assim sua visibilidade, que de outra forma é bastante limitada. As organizações maiores prometem expandir seu raio de influência e usar a situação para fazerem-se de palestrantes. Mais geralmente, porém, sua função é também injetar ideias e perspectivas burguesas no campo revolucionário, criar confusão, distorcer a realidade e difamar as organizações revolucionárias. De qualquer forma, seria um erro subestimar a importância da PMAI: é uma parte bastante relevante do movimento comunista mundial que participa desse contexto.

Tudo isso é feito em nome do "anti-imperialismo". Mas como esses partidos realmente definem o imperialismo e a luta contra ele?

No ponto 6 da Declaração de Paris da PMAI [3], fala-se da "superexploração e pilhagem do mundo" e da "escravização dos países em termos militares, diplomáticos e políticos da dívida" como características de um país imperialista. Além disso, quaisquer focos de crises e guerras no planeta são interpretados como resultado da tentativa dos EUA de manter sua hegemonia global (ponto 1). De acordo com a PMAI, essa política é diretamente contrariada pela China e pela Rússia, que dão às nações menores a oportunidade de recuperar sua “soberania nacional” por meio de suas políticas comerciais e ajuda militar. É exatamente por isso que esses estados e seus aliados são alvo da agressão imperialista ocidental, já que a OTAN não poderia aceitar que esses países se libertassem da escravidão imperialista. A conclusão da PMAI, que perpassa todas as suas declarações: o confinamento à luta contra a OTAN, a negação do caráter imperialista da Rússia e da China, a justificação e o apoio à sua política externa, incluindo a guerra liderada pelos russos na Ucrânia.

Não é por acaso que partidos e organizações que convocam as classes trabalhadoras de seus países a se reunirem sob a bandeira de Estados burgueses também adotam posições oportunistas de direita em outras áreas. Em sua análise do imperialismo, eles separam a categoriade sua base econômica e tentam caracterizar os interesses dos monopólios russo, chinês etc. como “promotores da paz” ou “não agressivos”. Eles negam as análises fundamentais de Lênin, segundo as quais o monopólio, não importa onde governe, ultrapassa as fronteiras nacionais em seu desejo de lucros extras e determina a política de seu estado. Enquanto a PMAI considera em suas declarações a supremacia econômica dos EUA como um dos pontos de partida para a escravização do mundo, ela apoia a expansão econômica e militar da Rússia e da China sem querer reconhecer a formação de novas dependências para outros países menores. Alimenta-se a ilusão de um possível capitalismo pacífico, segundo o qual seria possível, sem os agressores ocidentais, ter um sistema econômico justo em que os Estados burgueses agissem “em pé de igualdade” uns com os outros e não mais interferissem nos assuntos nacionais dos outros estados.

O conceito de imperialismo da PMAI não tem nada a ver com o de Lênin. Para Lênin, o imperialismo é uma fase de desenvolvimento do capitalismo, o capitalismo monopolista, em que a competição se transforma em guerra entre monopólios pela divisão do planeta, e em que o desenvolvimento desigual leva a um constante questionamento do equilíbrio de poder. Países mais fracos lutam para subir na hierarquia, países mais fortes travam guerras para manter sua supremacia. De forma totalmente arbitrária e não científica, a PMAI pensa que pode fazer uma divisão rígida entre países mais fracos e países mais fortes, sendo chamados apenas os países mais fortes econômica e militarmente de imperialistas. A consequência prática disso é apoiar os capitalistas mais fracos em sua luta para escalar a hierarquia global.

Deve-se, portanto, não apenas apoiar governos reacionários e anticomunistas como os do Irã, da Rússia ou do Cazaquistão, mas também pode-se colocar ao lado daqueles que até recentemente foram e ainda são aliados próximos do mesmo imperialismo ocidental contra o qual lutamos, como a Arábia Saudita, que nos últimos meses vem provando que pode ser mais do que apenas um "estado vassalo". Ou pode-se até sentir simpatia por alguns representantes da burguesia nos próprios países ocidentais, inclusive os mais reacionários. Se de fato são o Partido Democrata nos Estados Unidos e os liberais ao redor do mundo que muitas vezes abraçam as tendências mais expansionistas e agressivas do imperialismo ocidental, então seus rivais eleitorais podem ser retratados objetivamente como aliados do campo anti-imperialista. É por isso que Marco Rizzo, líder do revisionista “Partido Comunista” na Itália, escreve no Facebook [4] que Donald Trump é uma figura “anti-establishment”, enquanto o Partido Comunista dos Trabalhadores da Rússia não vê nenhum problema em oferecer um fórum em seu site para um representante do chamado “Comunismo do Make America Great Again” [5], ou seja, um apoiador de Trump dos EUA.

Caro leitor, ajude a divulgar o Página 1917, compartilhe nossas publicações nas suas redes sociais.

Comentários ofensivos e falsidades não serão publicados.