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sexta-feira, 15 de julho de 2022

Declaração Conjunta

Declaração conjunta dos secretários-gerais do Partido Comunista dos Trabalhadores da Espanha, do Partido Comunista da Grécia, do Partido Comunista do México e do Partido Comunista da Turquia

Em 8 de julho de 2022, uma reunião quadripartida entre o KKE, o PCTE, o PCM e o TKP ocorreu em Atenas, na sede do Comitê Central do KKE. 


Após o término da reunião, foi emitida a seguinte Declaração Conjunta dos Secretários Gerais dos quatro partidos comunistas: 

“Durante nosso encontro, realizado em Atenas em 8 de julho de 2022, tivemos a oportunidade de trocar opiniões sobre os acontecimentos em escala internacional e nacional, sobre a situação que está se desenvolvendo por causa da guerra imperialista na Ucrânia, bem como sobre o multifacetado ataque antioperário-antipopular, nas condições da chamada “transição verde”, da crise energética e, possivelmente, alimentar; em essência, da nova recessão econômica e crise iminente. 

As condições exigem que os partidos comunistas e operários de todo o mundo intensifiquem seus esforços de fortalecimento organizacional e ideológico-político para desenvolver sua luta comum sobre os princípios do comunismo científico, ou seja, o marxismo-leninismo e o internacionalismo proletário, a fim de avançar na o reagrupamento revolucionário do movimento comunista internacional. Em primeiro lugar, buscamos que nossos partidos, e os demais partidos comunistas, estreitem os laços com a classe trabalhadora e as camadas populares, deem passos e desempenhem um papel protagonista na luta de classes e, ao mesmo tempo, estabeleçam as bases por uma estratégia revolucionária única do movimento comunista internacional, na linha de ruptura com o sistema capitalista e todos os tipos de gestores do capital, na perspectiva de sua derrubada. Nossa época é a época de transição revolucionária do capitalismo para o socialismo. 

Nesse sentido, rejeitamos o apoio ou a participação em governos burgueses, combatendo tanto os partidos liberais quanto os socialdemocratas, em todos os tipos de governos burgueses que sirvam aos interesses dos monopólios. 

Nossos partidos consideram que o imperialismo não é apenas uma política agressiva, mas é o capitalismo monopolista, o capitalismo em sua era mais reacionária, ou seja, em sua fase superior. Essencialmente inerente a ela é a estagnação, a grande lacuna entre o potencial produtivo e a satisfação das necessidades contemporâneas dos trabalhadores, devido à exploração de classe, as contradições entre os monopólios e os estados burgueses que conduzem às guerras imperialistas. 

É o caso da guerra na Ucrânia, onde os interesses da Rússia capitalista colidem com os interesses e planos dos EUA, da OTAN, da UE, pelo controle de mercados, matérias-primas e rotas de transporte. 

Existe o risco de generalização da guerra ou de eclosão de novos conflitos imperialistas em países que surgiram após a dissolução da URSS, bem como em outras regiões do planeta, especialmente no Sudeste Asiático, onde se manifesta de maneira mais intensa a confrontação entre os EUA e a China pela primazia no sistema capitalista mundial. 

Tratamos todos os processos de secessão ou unificação dos Estados capitalistas do ponto de vista classista e lutamos contra a OTAN, a UE e todos os tipos de alianças imperialistas. Nos opomos à participação de nossos países em tais organizações antipopulares e intensificamos nosso esforço para que os trabalhadores não fiquem presos sob uma “bandeira alheia”, mas defendam seus próprios interesses em conflito com os exploradores e suas alianças internacionais. 

Consideramos que o reagrupamento ideológico-político e organizacional do movimento comunista internacional não pode ser realizado sem a luta inabalável contra todo tipo de administração burguesa do sistema de exploração, seja liberal ou social-democrata, contra o oportunismo no próprio movimento comunista. Nos opomos ao nacionalismo e ao cosmopolitismo do capital, ao racismo e o fascismo. Ao mesmo tempo, rechaçamos o  “falso” antifascismo e as diversas “frentes antifascistas”, utilizadas por forças políticas burguesas e oportunistas para atrelar as forças operárias e populares  na gestão burguesa, separando o fascismo do sistema capitalista que o engendra e o utiliza quando acha necessário. 

Damos todas as nossas forças para satisfazer as necessidades operárias e populares contemporâneas, através do reagrupamento do movimento operário-sindical, dos demais movimentos populares, na direção da luta contra os monopólios e o capitalismo. 

Nossos partidos destacam a validade e atualidade do socialismo-comunismo como única alternativa para os povos, e defendem a contribuição da Revolução Socialista de Outubro e do primeiro estado socialista, a URSS, enquanto estudam as causas de sua derrocada, que dizem respeito a questões da economia, da superestrutura política e da estratégia do Movimento Comunista Internacional. Acreditamos que o socialismo se rege por princípios e leis científicas: poder operário, socialização dos meios de produção e o planejamento científico central, rejeitamos posições de que se possa construir um socialismo com "mercado", mantendo empresas e mecanismos capitalistas, e o trabalho assalariado pelos proprietários dos meios de produção e da terra. 

Com base no exposto, as quatro partes concordaram com o seguinte: 

- Continuamos nossas iniciativas contra a guerra imperialista que começou formalmente com a inaceitável invasão da Rússia na Ucrânia. Opomo-nos às potências imperialistas, aos planos dos EUA, da OTAN, da UE e de qualquer outra aliança imperialista. 

- Destacamos o caráter imperialista da guerra na Ucrânia, exigimos a retirada de nossos países dos planos e organizações imperialistas. A solução para os povos não está nas ilusões alimentadas pelas forças burguesas de que pode haver uma "melhor arquitetura de segurança", ou uma OTAN "sem planos militares e sistemas de armas ofensivos em seu território" ou uma "UE pela paz", ou um “mundo multipolar pacífico”. A solução está no fortalecimento da luta de classes, pela retirada das alianças imperialistas, contra a guerra imperialista e sua “matriz”, ou seja, o sistema capitalista. 

- Continuamos nossos esforços para trocar experiências da ação de nossos partidos no movimento operário-sindical, nos demais movimentos populares, no movimento pela igualdade e emancipação das mulheres, para que as lutas em curso se tornem mais efetivas e que o os laços de nossos partidos com as forças operárias-populares sejam fortalecidos. 

- Intensificamos os nossos esforços no âmbito da RCI e da ICE para reforçar sua atividade, superar debilidades, lançar bases mais sólidas e enriquecer sua atividade no próximo período. 

- Mantemos nossa solidariedade com os comunistas da Ucrânia e de outros países que sofrem perseguição e proibições anticomunistas, bem como com outros combatentes que sofrem perseguição por sua ação sindical e política na Rússia, Cazaquistão e outros países. 

- Continuamos o esforço contra a difamação das conquistas do socialismo na União Soviética, que foi uma união multinacional de repúblicas socialistas iguais, e ao mesmo tempo destacamos o estudo das causas que levaram à sua dissolução, aproveitando o 100º aniversário de sua fundação. 

- Reforçamos nossa solidariedade com o povo e o Partido Comunista de Cuba, contra o bloqueio e os planos imperialistas dos EUA e da UE e contribuímos participando energicamente para o sucesso do 22º Encontro Internacional de Partidos Comunistas e Operários a ser realizado em outubro em Cuba”. 

Ástor García, Secretário Geral do CC do Partido Comunista dos Trabalhadores da Espanha (PCTE) 

Dimitris Koutsoubas, secretário-geral do CC do Partido Comunista da Grécia (KKE) 

Pável Blanco Cabrera, Primeiro Secretário do CC do Partido Comunista do México (PCM) 

KemalOkuyan , secretário-geral do CC do Partido Comunista da Turquia (TKP) 

Atenas, 8 de julho de 2022

quarta-feira, 29 de junho de 2022

MR-8 no Chile ou Jango no Uruguai?

Ivan Pinheiro*

 

"Os olhos de Jango marejavam, sobretudo quando se pronunciava a palavra Brasil. Dava vontade de botá-lo na mala do carro e trazê-lo de volta!".

  

Crédito: https://www.carlosromero.com.br/

Em julho de 1972, eu e meu amigo Francílio fomos ao Chile, com nossas companheiras, em uma viagem que misturava passeio e política. Allende era o Presidente chileno e a luta de classes no país atingia seu patamar mais alto. Eram momentos decisivos para o êxito da Unidade Popular. Era também uma grande oportunidade para revermos grandes amigos exilados em Santiago. 

Na ida, fomos de carro, passeando, do Rio a Montevidéu. Lá, deixamos o veículo em uma garagem e partimos para a capital portenha, no navio a vapor Ciudad de Buenos Aires, onde pegamos um avião para Santiago. 

A permanência no Chile foi emocionante. Reencontramos nossos amigos e conhecemos um pouco a experiência por que passava o país. Participamos da Marcha por los Cambios, uma imensa manifestação com mais de um milhão de pessoas no centro de Santiago, em apoio às mudanças que o governo Allende tentava implementar, em meio ao boicote da burguesia. 

Na volta ao Rio de Janeiro, fomos de avião até Montevidéu, onde pegamos o carro e nos colocamos na estrada, sem saber que algumas surpresas nos aguardavam no caminho. Passamos em Punta del Este, com muita fome, por volta das 14 horas. Como era inverno, parecia uma cidade fantasma. Depois de muita procura, descobrimos um restaurante aberto, que nos pareceu o melhor do mundo, apesar de simples. Só uma das mesas estava ocupada, por um homem bebendo vinho. 

Enquanto meu amigo ia ao banheiro, ocupamos uma mesa e descobrimos que as especialidades da casa eram sopas e vinhos. Nada melhor para famintos, no rigoroso inverno uruguaio. 

De repente, meu amigo volta esbaforido e sussurra: “Sabem quem está ali naquela mesa? O Presidente João Goulart!”. Pensei com meus botões: “Esse cara está louco; imagina o Jango aqui nesta espelunca!” Aproveitei para ir ao banheiro e conferir. Quando cheguei perto do homem, não tive dúvida: estávamos diante do nosso ex-presidente, deposto pela ditadura militar. E nós chegando do Chile, onde a burguesia, com a indefectível ajuda da CIA, tentava derrubar outro Presidente! 

Imediatamente, mudamo-nos para uma mesa próxima a Jango e tentamos conversar sobre política brasileira, mostrar-lhe as possibilidades de sua volta triunfal, com a derrubada da ditadura! Ele logo mostrou que este tema seria de mau tom. Parecia muito deprimido e desesperançado. 

A conversa acabou girando sobre cultura e futebol. Os olhos de Jango marejavam, sobretudo quando se pronunciava a palavra Brasil. Dava vontade de botá-lo na mala do carro e trazê-lo de volta! 

Não era uma época de ouro para a cultura brasileira. Ao mesmo tempo, havia a ofensiva ufanista da ditadura, o “Brasil: ame-o ou deixe-o”, o “milagre brasileiro”. Na América Latina, a esquerda avançava e a direita articulava grande ofensiva: ditaduras militares, torturas, desaparecimento de militantes. 

Perdi a noção de quanto tempo ficamos com Jango, até que seu filho João Vicente chegasse ao restaurante para levá-lo. 

Dois dias depois, na fronteira Brasil/Uruguai, fomos parados em um posto do exército por militares que já nos esperavam com armas no acostamento e olhavam, fixamente, a placa do carro. Habilmente, levaram-nos a uma sala, a pretexto de verificar documentos, enquanto o carro permaneceu fora de nossas vistas. Logo, desconfiei: descobriram nossa ligação com o MR-8 e nos pegaram. O que fariam de nossas companheiras, que não compartilhavam nossa militância? Para onde nos levariam para iniciar a tortura? 

Algum tempo depois, fomos liberados pelos militares, que devolveram a chave do carro e autorizaram nossa partida. Começamos a desconfiar que tudo havia sido revistado. A primeira coisa que percebemos foi o sumiço de vários rolos de filmes fotográficos, que guardávamos no porta-luvas, ainda virgens. 

A desconfiança nos acompanhou a viagem toda. Será que nos pegariam mais à frente, para evitar um incidente na fronteira? 

Praticamente, só paramos para nos alimentar, botar gasolina e nos revezarmos ao volante. Passaram o Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná e São Paulo. Chegando à fronteira com o Rio de Janeiro, veio outra paranóia. Será que, por razões táticas, resolveram nos prender no Rio, já que éramos todos cariocas? Chegamos incólumes. O tempo foi passando e a desconfiança também. 

Uns sete anos depois, quando eu já militava clandestinamente no PCB e era candidato a Presidente do Sindicato dos Bancários do RJ, chego ao trabalho no Banco do Brasil e um colega me entrega um envelope apócrifo, deixado por um homem de terno. Quando abri, eram as fotos daquela viagem, sem os negativos e, por norma de segurança, sem que, em nenhuma delas, aparecessem camaradas com os quais estivemos em Santiago. 

Só podia ser um recado da repressão: “fomos nós; continuamos de olho!” A única dúvida, que perdurou por dez anos, era a razão de nos terem parado na fronteira. Teria sido o contato com dirigentes do MR-8 exilados no Chile ou o encontro fortuito com Jango no Uruguai, já que em ambos os países o SNI seguia brasileiros? 

O tempo passou mais um pouco até que, em 1982, fui preso, com cerca de 80 camaradas, quando a Polícia Federal desmontou um Congresso clandestino do PCB, em São Paulo. A invasão do local se deu de forma espalhafatosa, com dezenas de jovens agentes armados, tensos, gritando, mandando-nos botar as mãos para o alto. Na sede da Polícia Federal, dividiram-nos em pequenos grupos. No meu grupo, lembro-me do Armando Ziller, do Lourenço e do Takao Amano, que tinha fama de grande atirador e lutador de artes marciais, o único que ficou algemado. 

O responsável pelo meu interrogatório era o delegado Veronezi, que mais tarde veio a ser diretor da Polícia Federal em SP. Depois das costumeiras preleções ameaçadoras, o delegado, com minha ficha na mão, finalmente, faz a primeira pergunta: 

— Quer dizer que você era homem de ligação com o João Goulart no Uruguai? 

Ainda bem que ele não perguntou nada sobre o MR-8. Talvez por isso é que eu e Francílio ainda estivéssemos vivos. E ainda bem que, em 1982, a repressão já não tinha mais condições de torturar presos políticos, com a ditadura enfraquecida pela resistência democrática. Além do mais, a notícia da nossa prisão correra o mundo e, na porta da Polícia Federal, havia uma vigília de solidariedade, por onde passaram inúmeras personalidades, inclusive um sindicalista chamado Luiz Inácio da Silva, cujo irmão, Frei Chico, era um dos presos. 

Apesar de ser a mais pura verdade, minha resposta poderia parecer provocação. Disse ao delegado que devia haver algum engano do informante, pois meu único encontro com Jango foi casual, em uma adega uruguaia, onde bebemos vinho e conversamos apenas sobre música e futebol. 

Por sorte, era 1982. 

— Você acha que eu tenho cara de babaca? – aos berros, irado, perguntou o delegado e deu um murro forte na mesa. Em seguida, levantou-se para tomar café e se acalmar. Louco para me dar uma porrada! 

Fonte: “68 – A geração que queria mudar o mundo”, Comissão de Anistia do Ministério da Justiça, 2011. 


*Ivan Pinheiro era diretor do Grêmio Estudantil no Colégio Pedro II no começo dos anos 60, após o golpe de 1964 foi diretor do Centro Acadêmico Luiz Carpenter (CALC) da Universidade Estadual da Guanabara e militante do MR-8. Em 1975 ingressa no Partido Comunista Brasileiro (PCB), é eleito presidente do Sindicato dos Bancários em 1978. Foi dirigente e secretário geral do PCB.

Edição: Página 1917

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sábado, 25 de junho de 2022

Algumas Lições da Greve da CSN

Cem Flores *

22.06.2022 

Estamos fartos, cansamos de ser escravos!

Operário da CSN

 

Greve geral,1917.

A mobilização e a greve dos/as operários/as da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) de Volta Redonda, realizada em abril, praticamente não teve divulgação e muito menos debate entre o movimento sindical e na “esquerda”, preocupados que estão exclusivamente com as próximas eleições. Esse levante operário, um dos vários exemplos recentes de reação espontânea de trabalhadores e trabalhadoras ao aumento da exploração, tem sido abafado em toda sua força e exemplo, pois se trata de uma luta que a “esquerda” reformista e pelega foi incapaz de enquadrar.

A mobilização surgiu em um determinado setor da usina da CSN (andaime/manutenção) e contagiou todos os/as trabalhadores/as da metalúrgica, já cansados de sofrer nas costas a crescente exploração dos patrões, sem conseguir ainda esboçar resistência mais eficaz. Afinal, se há algo que os trabalhadores da CSN possuem é tradição de luta, como na emblemática greve de 1988. 

Nesse embate recente, logo após a explosão do movimento no início de abril, foi eleita uma comissão para falar em nome dos/as trabalhadores/as (já que o sindicato, como a imensa maioria hoje no Brasil, não fala pelos/as operários/as). Essa comissão apresentou uma proposta de 30% de aumento salarial (reposição da inflação), 10% do lucro total como PLR (participação nos lucros e resultados), entre outras demandas. Em duas assembleias, a proposta da empresa foi rechaçada pela imensa maioria dos trabalhadores (mais de 95%!). 

A empresa retaliou o movimento com repressão policial e centenas de demissões e a luta dos/as trabalhadores/as retrocedeu. Ajudou nesse retrocesso a insipiente organização dos/as trabalhadores/as, o isolamento em relação à luta em outras plantas da empresa, além do duro período atravessado por todas as categorias, de refluxo das greves e alto desemprego. Mas, também, a proximidade das eleições sindicais no Sindicato dos Metalúrgicos de Volta Redonda, com a cooptação de parte da direção do movimento pelas chapas que concorrem ao pleito no próximo mês. Assim, repressão patronal de um lado, nível baixo de organização, isolamento da luta entre os/as trabalhadores/as dessa e de outras categorias, contexto geral difícil e desvio eleitoral esvaziaram a greve construída pela base e apaziguaram (por enquanto) os riscos que movimentos dessa ordem criam ao ambiente pacato e ordeiro dos acordos negociados entre empresa e sindicato de forma comportada e referendada pelo estado. Ambiente que só serve para aprofundar e consolidar a exploração dos trabalhadores. 

A luta dos/as trabalhadores/as da CSN continua. Essas explosões de insatisfação e resistência, quando se paralisa a produção e os patrões sentem o golpe, deixam gravadas na memória dos/as trabalhadores/as a compreensão (ainda embrionária) de sua força, de sua capacidade de combate e do que é necessário fazer para avançar na luta. Ensina que a luta de classes coloca operários/as e patrões em lados opostos, irreconciliáveis, pois seus interesses concretos são antagônicos. Além de outras razões, só essas já valem a luta! 

sexta-feira, 10 de junho de 2022

A Face Oculta de Volodymyr Zelensky

A Face Oculta de Volodymyr Zelensky

Nota do editor: 

     Nesse artigo de Guy Mettan* é detalhada a verdadeira face do governo Zelensky que transformou a Ucrânia numa marionete da OTAN, arrastando o seu povo para uma carnificina. Está à vista de todos que a guerra na Ucrânia envolve interesses em conflito no interior do sistema imperialista, nela o proletariado Russo e Ucraniano nada têm a ganhar. Sublinhamos que a Rússia de Putin é uma potência capitalista, atua política e militarmente no sentido de proteger e ampliar o domínio dos seus monopólios naquela região. Os dois lados nessa guerra são inimigos do proletariado e da paz, estão a serviço das suas burguesias e da disputa interimperialista. 

Guy Mettan 

“Herói da Liberdade”, “Hero of our time”, “Der Unbeugsame (O indomável)”, “The Unlikely Ukrainian Hero Who Defied Putin and United the World”, “Zelensky, l’Ukraine dans le sang”: os jornalistas e os líderes ocidentais já não sabem que mais superlativos utilizar para cantar louvores ao presidente ucraniano, tão fascinados estão pela “surpreendente resiliência” do ator milagrosamente transformado em “cabo de guerra” e “salvador da democracia”. 

                                                                    Ilustração, Yann Caradec

Há três meses que o chefe de Estado ucraniano vem a encher as primeiras páginas das revistas, a abrir os noticiários, a inaugurar o Festival de Cinema de Cannes, a discursar nos parlamentos, a felicitar e repreender os seus colegas chefes de Estado dez vezes mais poderosos que ele e com uma sorte e um sentido tático que nenhum ator de cinema ou líder político antes dele tinham conhecido. 

Como não cair no encanto deste improvável Mr. Bean que, depois de ter conquistado o público com as suas caretas e as suas extravagâncias (por exemplo, a andar nu numa loja e a imitar um pianista a brincar com o seu pênis), soube numa só noite trocar as suas ousadas travessuras e trocadilhos por uma camiseta verde-acinzentada, uma barba de uma semana e palavras sérias para galvanizar as suas tropas cercadas pelo malvado urso russo? 

Desde 24 de fevereiro, Volodymyr Zelensky deu, sem dúvida, a prova de que é um artista da política internacional com um grande talento. Aqueles que acompanharam a sua carreira de comediante não ficaram surpresos porque conheciam o seu sentido inato de improvisação, as suas faculdades miméticas, a sua audácia de atuação. A forma como conduziu a campanha e em poucas semanas, entre 31 de dezembro de 2018 e 21 de abril de 2019, arrasou duros adversários como o ex-presidente Poroshenko, ao mobilizar a sua equipe de produção e os seus generosos oligarcas doadores, já havia demonstrado a amplitude dos seus talentos. Mas faltava ainda transformar esse teste. O que agora está feito. 

Talento para o jogo duplo 

No entanto, como muitas vezes acontece, a fachada raramente se assemelha aos bastidores. Os holofotes escondem mais do que mostram. E aí, fica claro que o quadro é menos cor-de-rosa: tanto as suas realizações como chefe de Estado como a sua atuação como defensor da democracia deixam seriamente a desejar. 

Esse talento para o jogo duplo, Zelensky mostrou-o assim que foi eleito. Recorde-se que foi eleito com um resultado máximo de 73,2% dos votos, prometendo acabar com a corrupção, conduzir a Ucrânia no caminho do progresso e da civilização e, sobretudo, fazer a paz com os russófonos do Donbass. Assim que foi eleito, traiu todas as suas promessas com um zelo tão intempestivo que o seu índice de popularidade caiu para 23% em janeiro de 2022, ao ponto de ser superado pelos seus dois principais adversários. 

A partir de maio de 2019, para satisfazer os oligarcas seus patrocinadores, o recém-eleito lançou um programa massivo de privatização de terras incidindo sobre 40 milhões de hectares de boas terras agrícolas sob o pretexto de que a moratória sobre a venda dessas terras teria feito perder bilhões de dólares ao PIB do país. Dando continuidade aos programas de “descomunização” e “desrussificação” iniciados desde o golpe pró-americano de fevereiro de 2014, lançou uma vasta operação de privatização dos bens estatais, de austeridade orçamental, de desregulamentação das leis do trabalho e de desmantelamento dos sindicatos, o que exasperou a maioria dos ucranianos que não compreendiam o que seu candidato queria dizer com “progresso”, “ocidentalização” e “normalização” da economia ucraniana. Num país que em 2020 tinha um rendimento per capita de 3.726 US $ contra 10.126 US $ do adversário russo, quando em 1991 o rendimento médio da Ucrânia superava o da Rússia, a comparação não é lisonjeira. E entende-se que os ucranianos não tenham aplaudido essa enésima reforma neoliberal. 

Quanto ao caminho para a civilização, tomou forma com outro decreto que, em 19 de maio de 2021, garantiu o domínio da língua ucraniana e excluiu o russo em todas as áreas da vida pública, administrações, escolas e empresas, com grande satisfação dos nacionalistas e a estupefação dos russófonos no sudeste do país. 

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