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quinta-feira, 7 de janeiro de 2021

A Produção Social de Doenças e de Crises

Cássio Arruda Boechat*


    Até aqui, o agronegócio não parou durante a pandemia de coronavírus e se vangloria de ser responsável por ter evitado uma crise econômica que chegou a ser anunciada como a pior da história, com prognósticos que apontavam para uma queda superior a 8% do PIB no Brasil. Com isso, reforça-se a ideologia vitoriosa do assim chamado "agro", que se coloca como a cura para os males nacionais. É bom lembrar, porém, do phármakon, de onde provém a palavra "farmácia", que pode curar ou intoxicar, sendo ao mesmo tempo remédio e veneno. Ou seja, procuramos uma reflexão de até que ponto a suposta solução é parte da causa dos problemas.




   Visitando recentemente o interior paulista, em meio a uma seca terrível, observei alguns poucos trabalhadores aplicando defensivos num canavial recém-cortado por monstruosas máquinas em terras arrendadas por uma grande usina francesa. O cenário era inóspito, desabitado e soando a desértico. Queimadas despontavam no horizonte. Os homens, irreconhecíveis, caminhavam mascarados sob o sol ardente. Alguns com tubos de PVC na mão jogavam alguma coisa aqui e ali pelo interior dos tubos até o chão; outros, com um recipiente atado às costas, aplicavam um líquido periodicamente. Faziam a chamada "catação": matavam mato e formigas, respectivamente, aplicando produtos químicos na entrada dos formigueiros e nas touceiras de capim–colonião (que tem o hilário nome científico Panicum maximum ). "Inimigos" persistentes da produtividade da lavoura.

   A cena poderia representar a solução para a angústia antediluviana do lavrador, expressa pelo viajante Auguste de Saint-Hilaire (1779-1853), que teria afirmado – antes, claro, de ser lembrado por Macunaíma – que "ou o Brasil acaba com a saúva, ou a saúva acaba com o Brasil". A bem da verdade, como os próprios mascarados me contaram, não se tratava de acabar com as formigas ou com as ervas daninhas, mas de controlá-las. Independentemente de quanto veneno é posto, elas voltam todo ano. Ingênua pergunta: "Mas e o veneno, para onde vai?". Silêncio… A solução ali dada, desse modo, não parece ser suficiente ou definitiva para acabar com "nossos" problemas, cujas raízes estão muito além das saúvas e podem estar também nas formas de enfrentarmos as doenças e as crises.

  A memória e os estudos nos permitem voltar no tempo para comparar aquela cena da profilaxia recente de formigas e mato com algumas outras profilaxias, inclusive de trabalhadores, de um passado não muito distante, e avaliar a produção social de doenças e de crises no agronegócio.

   Próximo de onde se encontra aquele canavial, vi quando criança, assombrado, uma cena semelhante àquela da chegada dos federais norte-americanos (seriam da Nasa?) para cercar a casa suburbana dos meninos que acolheram o E.T. no filme de Spielberg. Completamente cobertos, técnicos da Fundação de Defesa da Citricultura (Fundecitrus) vinham isolar um pomar e erradicar laranjeiras num enorme raio para evitar a propagação do cancro cítrico, causado pela bactéria Xanthomonas citri.

   Naquela época, o noroeste de São Paulo tinha mais laranjais do que canaviais. A paisagem era dominada por laranjeiras enfileiradas até onde a vista alcançava. Uma medida tão dura como aquela da erradicação chamava a atenção para a ocorrência de epidemias que afetavam a "população" de árvores. Depois de arrancadas as laranjeiras infectadas e suas vizinhas, a pilha de troncos ainda carregados de laranjas era incinerada em altas fogueiras. A área isolada ficava em quarentena, e os técnicos vestidos de branco da cabeça aos pés rodavam todas as propriedades produtoras em buscas de novos casos. Ao menor indício de cancro, estava dada a sentença.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2021

Zuleide Faria de Melo, uma Revolucionária!

Ivan Pinheiro

5 de janeiro de 2021

   A querida amiga e camarada Zuleide completa, em 6 de janeiro de 2021, 89 anos de uma vida digna e generosa, tendo dedicado à Revolução Socialista seus melhores e mais intensos esforços.

Professora Zuleide Faria de Melo

   

   Zuleide reúne as principais qualidades que distinguem a militância comunista: firmeza ideológica, referência nos fundamentos do marxismo-leninismo, exercício do internacionalismo proletário, respeito ao centralismo democrático, nenhuma ilusão na possibilidade de humanizar e democratizar o capitalismo ou de superá-lo gradualmente pelas vias institucionais.

   Zuleide tem outras qualidades que valorizo: nunca deixou de expor francamente suas opiniões nas instâncias partidárias, mesmo quando as sabia minoritárias. Nunca desqualificou nem desrespeitou qualquer camarada, mesmo nos debates mais duros e difíceis. Como militante e dirigente comunista e professora do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ, nunca fez qualquer concessão às muitas facetas do reformismo, do oportunismo e do academicismo. Zuleide é a melhor definição de intelectual orgânico comunista.

   Em termos de contribuição teórica e prática, de exemplo, coragem e doação pessoal, Zuleide foi a principal referência do Movimento Nacional em Defesa do PCB que, em 25 de janeiro de 1992, derrotou os que queriam acabar com o Partido, dando início à sua reconstrução revolucionária. Durante quase quatro anos – antes, durante e depois dessa vitória – sua residência foi na prática a sede nacional, primeiro do Movimento de Defesa do PCB e depois do próprio Partido, até superarmos as dificuldades materiais para termos nossa primeira e modesta sede pública, depois da cisão que chamamos de “racha”, em que fomos o lado que saiu com a roupa do corpo, mas com muita firmeza ideológica, garra e determinação política, apesar dos escombros da contrarrevolução na União Soviética, que só caíam sobre nossas cabeças.

   Com a contribuição decisiva e generosa da sua querida mãe, Dona Dolores, quase camarada, ali se davam as articulações e reuniões do núcleo duro da resistência ao reformismo e ao liquidacionismo: recebíamos camaradas e amigos, entre os quais Álvaro Cunhal, Miguel Urbano Rodrigues, dirigentes do PC cubano e de outros partidos irmãos, muitas vezes com a presença querida e inestimável do saudoso Horácio Macedo. Para quem não sabe, Zuleide é uma verdadeira dama, uma elegante anfitriã que se preocupa com os mínimos detalhes.

   O escritório da sua ainda atual residência funcionou como a sede do secretariado político e de organização da resistência e, depois do “racha”, da direção do PCB que comandou a reconstrução. O escritório ainda é o mesmo, como uma espécie de museu de parte da história do PCB. Estão lá, quase intactos, sua mesa de trabalho, o fax, o telefone, os símbolos soviéticos, as imagens de Lenin, a biblioteca, os arquivos e uma histórica máquina de escrever IBM 82, em que, além de redigir fluentemente, ela datilografava com maestria panfletos, atas, correspondências, circulares, o que fosse necessário. E ainda ia para as ruas agitar e panfletar. Zuleide carregava e tocava o piano!

   Não era só no trabalho intelectual e de organização que ela se superava. Na luta em defesa do PCB e em sua reconstrução, foi a mais eficiente na captação de finanças, agitação e propaganda, no contato com simpatizantes, nas relações internacionais, na formação política e ideológica da militância, sobretudo da juventude. Foi Presidente Nacional (¹) do PCB por mais de dez anos, a partir de 1985, sucedendo o camarada Horácio Macedo, por razões de saúde.

Ivan Pinheiro e Zuleide
   

   Embora sempre muito afinados nas questões estratégicas e ideológicas, eu e Zuleide tivemos algumas divergências na tática, em discussões reservadas ou no âmbito do Comitê Central e de Congressos partidários. Nenhuma delas afetou o carinho, o respeito e a confiança que sempre marcaram nossa relação. Na formação de minha consciência política e ideológica, a revolucionária Zuleide Faria de Melo foi uma das principais referências.

domingo, 3 de janeiro de 2021

Carta aos Comunistas*

1980


Luiz Carlos Prestes (Porto Alegre, 3 de janeiro de 1898 – Rio de Janeiro, 7 de março de 1990)

(...) Na verdade, a justa preocupação da maioria dos comunistas com a unidade do PCB vem sendo utilizada pela atual direção como um biombo para tentar ocultar a falta de princípios reinante nessa direção, o apego aos cargos e postos, o oportunismo dos que mudam de posição política para atender a interesses pessoais, a tradicional conciliação em torno de formulações genéricas que nada definem e que visam apenas a manutenção do status quo, deixando, ao mesmo tempo, as mãos livres para que cada dirigente faça o que bem entenda. Citarei apenas um exemplo: o mesmo Comitê Central que em outubro de 1978 aprovara e distribuíra ao Partido um documento político, contra o qual votaram apenas dois membros da direção, poucos meses depois, no começo de 1979, se propunha a aprovar um novo documento com orientação política oposta ao primeiro, sem antes ter feito um balanço da aplicação e dos resultados obtidos com a política apresentada em outubro de 78. O meu repúdio, na qualidade de Secretário Geral do PCB, a tal tipo de procedimento levou a que a maioria do CC, revelando mais uma vez sua verdadeira face oportunista e total falta de princípios, recuasse e se chegasse à aprovação de um documento de conciliação, anódino e inexpressivo, em maio do ano passado.

Luiz Carlos Prestes
   O oportunismo, o carreirismo e compadrismo, a falta de uma justa política de quadros, a falta de princípios e a total ausência de democracia interna no funcionamento da direção, os métodos errados de condução da luta interna, que é transformada em encarniçada luta pessoal, em que as intrigas e calúnias passam a ser prática corrente da vida partidária adquiriram tais proporções, que me obrigam a denunciar tal situação a todos os comunistas. Não posso admitir que meu nome continue a ser usado para dar cobertura a uma falsa unidade, há muito inexistente. Reconhecendo que sou o principal responsável pela atual situação a que chegaram o PCB e sua direção, assumo a responsabilidade de denunciá-la a todos os companheiros, apelando para que tomem os destinos do movimento comunista em suas mãos.

   Quero lembrar ainda que, para cumprir o papel revolucionário de dirigir a classe operária e as massas trabalhadoras rumo ao socialismo, é necessário um partido revolucionário que baseado na luta pela aplicação de uma orientação política correta conquiste o lugar de vanguarda reconhecida da classe operária. Um partido operário pela sua composição e pela sua ideologia, em que a democracia interna, a direção coletiva e a unidade ideológica, política e orgânica seja uma realidade construída na luta. Somos obrigados a reconhecer que este não é o caso do PCB. Por isso mesmo, tornou-se imperioso para todos os comunistas tomar consciência da real situação existente e começar a reagir, formulando novos métodos de vida partidária realmente democráticos e efetivamente adequados às tarefas que a luta revolucionária coloca diante de nós; é necessário reagir às arbitrariedades e deformações que já atingem proporções alarmantes e dar início a um processo de discussão realmente democrático, que venha tornar possível a eleição, em todos os níveis partidários, de direções que realmente sejam a expressão democrática da vontade da maioria dos comunistas. É necessário lutar por um outro tipo de direção, inteiramente diferente da atual, com gente nova, com comunistas que efetivamente possuam as qualidades morais indispensáveis aos dirigentes de um partido revolucionário. Não é mais admissível a perpetuação da atual direção que está levando o PCB à falência em todos os terrenos.

   A convocação do VII Congresso do PCB, dentro dessa perspectiva, deve ser transformada no início de um processo de ampla discussão, por parte de todos os comunistas, não só das linhas gerais de nossa política, como de uma série de aspectos da atividade da direção. Esta é a oportunidade de cobrar da direção tudo que aconteceu nos últimos anos: a falta de preparação para enfrentar a repressão fascista e o consequente desmantelamento de todo o aparelho partidário; as prisões e os desaparecimentos de tantos companheiros e amigos; a ausência de democracia interna, o arbítrio, a falta de planejamento e controle das tarefas decididas; o comportamento dos dirigentes diante do inimigo de classe; a execução prática do chamado "desafio histórico" aprovado no VI Congresso e a falta de empenho em organizar o partido na classe operária; a atividade política da direção nas diferentes frentes de trabalho; a orientação política seguida na Voz Operária; e muitos outros aspectos do trabalho de direção.

   Considero imprescindível destacar que o VII Congresso só cumprirá um papel realmente renovador, tanto no que diz respeito à elaboração de uma orientação política correta e adequada às novas condições existentes no País e verdadeiramente representativa da vontade da maioria dos comunistas, como no que concerne à eleição de um novo tipo de direção à altura dessa nova orientação, se os debates preparatórios e todos os procedimentos de sua realização forem realmente democráticos. Não posso admitir, nem concordar com a volta ao "arrudismo", à utilização de métodos discricionários e autoritários na condução da luta interna, à manipulação dos debates, à rotulação das pessoas com as mais variadas etiquetas do tipo "esquerdista", "eurocomunista", "ortodoxo", "duro", etc. Não é admissível que se continue a usar de expedientes, como a nomeação de delegados a conferências partidárias, para as quais deveriam ser democraticamente eleitos pelas organizações a que pertencem.

   A democracia no processo de realização do VII Congresso precisa ser defendida com empenho por todos os comunistas. É necessário que todos – e em particular os dirigentes – falem abertamente o que pensam; devemos repudiar o comportamento dos que calam de público para falarem pelas costas ou transmitirem informações sigilosas à imprensa burguesa sem ter sequer a coragem de se identificar.

   Quero ainda dizer que tenho conhecimento do quanto estou sendo caluniado e atacado pelas costas. Isso é mais uma prova dos métodos falsos a que me referi acima. Devo deixar claro que, não obstante ser o primeiro a achar que, inclusive pela minha idade já avançada, deveria deixar a direção do PCB, só poderei concordar com a minha substituição num Congresso realmente democrático. Não aceitarei meu afastamento decidido por algum tipo de Congresso farsa, manipulado e antidemocrático, em que os próprios destinos do PCB e de nossa causa revolucionária corram perigo. 

(...) Nós, comunistas, não podemos abdicar de nossa condição de lutadores pelo socialismo, restringindo-nos à suposta "democracia" que nos querem impingir agora os governantes, nem às conquistas muito limitadas alcançadas pela atual "abertura", que na prática exclui as grandes massas populares. Não podemos concordar com uma situação que assegure liberdades apenas para as elites, em que a grande maioria da sociedade continua na miséria e sem a garantia dos mais elementares direitos humanos.

(...) É importante ainda chamar a atenção dos comunistas para o fato de nas fileiras do PCB ter-se convertido a luta justa contra os desvios "esquerdistas" e "golpistas" numa obsessão quase cega, que nos tem levado frequentemente a identificar qualquer atitude ou posição combativa pelas causas justas dos trabalhadores com um suposto "esquerdismo" ou "golpismo".

(...) No que diz respeito ao PCB, sou de opinião de que, tendo sido correto combater os desvios "esquerdistas" e "golpistas", após o golpe de 1964, caímos do outro lado, em posições próximas do reboquismo e da passividade. Devemos reconhecer, inclusive, que o PCB não teve a capacidade de apresentar uma alternativa (principalmente uma estratégia) correta de luta contra a ditadura, contribuindo, assim, para que muitos revolucionários honestos, particularmente os jovens que não queriam-se conformar com o arbítrio instaurado no País, enveredassem pelo caminho de ações individuais ou desligadas das massas e que só poderiam conduzir a sucessivas derrotas.

*Edição: Página 1917, trechos selecionados, grifos nossos.

Fonte: https://ceppes.org.br/biblioteca/biblioteca-marxista/luiz-carlos-prestes/carta-aos-comunistas



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