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quinta-feira, 10 de dezembro de 2020

Gregório Bezerra Personificou os Explorados e Oprimidos do Brasil

Por Anita Leocadia Prestes*

2011

 

   É com profunda emoção que escrevo esta apresentação do livro de Memórias de Gregório Bezerra. Quando penso em Gregório, vejo diante de mim o povo brasileiro, os milhões de homens, mulheres e crianças do nosso país, maltratados e sofridos durante séculos de exploração e opressão.


Gregório preso e torturado após o golpe de 1964.

   Gregório é a legítima expressão desse povo, no que ele tem de mais autêntico e verdadeiro. É a genuína personificação dos explorados e oprimidos da nossa terra – jamais dos poderosos, dos exploradores. Estes sempre lhe dedicaram um indisfarçável ódio de classe, ódio dos opressores, conscientes do perigo, para os interesses dominantes, das “ideias subversivas” difundidas por homens como ele.

   Na grande trincheira da luta de classes, Gregório sempre esteve do lado dos trabalhadores, dos desvalidos e dos oprimidos. Justamente por isso suportou constantes perseguições policiais, atrozes torturas e um total de 23 anos de cárcere em diversos presídios do Brasil. Teve de suportar a feroz campanha que os meios de comunicação a serviço dos interesses dominantes sempre moveram contra ele e contra os comunistas.

   Conheci Gregório há muitos anos. Em 1946, eu tinha apenas nove anos de idade quando ele, eleito deputado federal por Pernambuco na legenda do Partido Comunista do Brasil (PCB), foi morar conosco, na casa de meu pai, Luiz Carlos Prestes. O partido havia conquistado a legalidade e elegera para a Assembleia Nacional Constituinte uma bancada comunista composta de um senador, Luiz Carlos Prestes, e catorze deputados, entre os quais Gregório Bezerra. Em nossa casa, além da família, moravam vários camaradas do PCB. 

   Gregório destacava-se, dentre todos, pela dedicação ao partido e à causa revolucionária que abraçara ainda jovem, mas sobretudo pelo humanismo que irradiava de sua pessoa. Ele sabia compreender os problemas de todos que o cercavam e relacionar-se bem e de maneira afetuosa tanto com as crianças quanto com os idosos, com pessoas importantes ou humildes, com homens ou mulheres. Gregório não incomodava; ao contrário, sempre ajudou em nossa casa e era capaz de manter permanentemente um convívio agradável com todos que o rodeavam. Lembro como minhas tias observavam que, de tantos companheiros que passaram por nossa casa, nenhum deixara tão boas lembranças e tantas saudades quanto ele.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2020

Gregório Bezerra 1900-2020

Entrevista concedida no exílio, Moscou, 1976.*


"Em 35 eu tinha muito armamento, muito armamento mesmo e muita munição, em 64 eu tinha muitos homens dispostos a lutar, a perder suas vidas para defender o governo de Jango, o governo Arraes...infelizmente não tínhamos armas."

* Documentário produzido por: Luiz Alberto Sanz, Lars Safstrom, Leonardo Cespedes e Staffan Lindqvist.










quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

Estado de Emergência, Instrumento de Controle Social às Portas de uma Catástrofe.

Ángeles Maestro [*]

Após nove meses de pandemia, com os serviços sanitários outra vez à beira do colapso sem que se tenha tomado medida significativa alguma – que não seja o confinamento – para enfrentar uma situação absolutamente previsível e enquanto as expectativas vitais ruem nos bairros operários e para dezenas de milhares de pequenos e médios empresários, temos o direito de afirmar que a estratégia do governo central e de todos os governos autónomos, destina-se a utilizar todo tipo de instrumentos de controle social e de repressão contra previsíveis revoltas populares.


A resposta à crise: uma gigantesca destruição de capital ao serviço da oligarquia financeira e das multinacionais da energia.

 

Ainda não sabemos de onde surgiu o vírus, mas sabemos que antes que aparecesse já estavam acesos todos os alarmes do estalar de uma grande crise e que a situação social era explosiva em muitos países. No caso do reino da Espanha, "sendo um país rico, vive em situação de pobreza generalizada" afirmava em princípios de 2020 o Relator da ONU para a Pobreza. [1]

Como em todas as crises capitalistas – e esta é de proporções gigantescas – a destruição de capital segue seu curso arrasador varrendo maciçamente da cena pequenas e médias empresas. [2] Tal como ocorre nas crises, os bancos aceleram os processos de concentração com a compra a preço de saldo do pouco que resta da banca pública com a cumplicidade direta do governo, como foi o caso do Bankia e com os correspondentes despedimentos maciços, ao mesmo que se constituem em administradores do crédito procedente da UE.

Num cenário de empobrecimento maciço e de afundamento do modelo económico do turismo e do tijolo, quando urge abordar a reconstrução produtiva a partir de posições de soberania, a UE decidiu que as prioridades são a transição energética rumo a uma energia mais verde e rumo à digitalização. Essas são as condições para ter acesso aos 760 mil milhões de euros do fundo de recuperação europeu, ou seja, para assegurar aos bancos e às multinacionais o controle dessa prodigiosa quantidade de dinheiro, negando qualquer soberania. Tudo isto quando se está a destruir o pouco tecido industrial que resta e não é a contaminação ambiental o principal problema e quando a digitalização – em mãos do capital – servirá para intensificar a destruição de postos de trabalho. Ou seja, enquanto milhões de pessoas enfrentam a destruição maciça das suas condições de vida os bancos e as multinacionais, sobretudo as eléctricas e a da energia preparam-se para receber uma chuva de milhões.

Não se pode ocultar a ninguém que a rápida extensão da miséria é prelúdio de grandes explosões sociais. Também é evidente que o governo assiste impassível ao desastre que se vislumbra sem adotar as mínimas medidas para enfrentá-lo.

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