Por Anita Leocadia Prestes*
2011
É com profunda emoção que escrevo esta
apresentação do livro de Memórias de Gregório Bezerra. Quando penso em
Gregório, vejo diante de mim o povo brasileiro, os milhões de homens, mulheres
e crianças do nosso país, maltratados e sofridos durante séculos de exploração
e opressão.
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| Gregório preso e torturado após o golpe de 1964. |
Gregório é a legítima expressão desse povo,
no que ele tem de mais autêntico e verdadeiro. É a genuína personificação dos
explorados e oprimidos da nossa terra – jamais dos poderosos, dos exploradores.
Estes sempre lhe dedicaram um indisfarçável ódio de classe, ódio dos
opressores, conscientes do perigo, para os interesses dominantes, das “ideias
subversivas” difundidas por homens como ele.
Na grande trincheira da luta de classes,
Gregório sempre esteve do lado dos trabalhadores, dos desvalidos e dos
oprimidos. Justamente por isso suportou constantes perseguições policiais,
atrozes torturas e um total de 23 anos de cárcere em diversos presídios do
Brasil. Teve de suportar a feroz campanha que os meios de comunicação a serviço
dos interesses dominantes sempre moveram contra ele e contra os comunistas.
Conheci Gregório há muitos anos. Em 1946, eu tinha apenas nove anos de idade quando ele, eleito deputado federal por Pernambuco na legenda do Partido Comunista do Brasil (PCB), foi morar conosco, na casa de meu pai, Luiz Carlos Prestes. O partido havia conquistado a legalidade e elegera para a Assembleia Nacional Constituinte uma bancada comunista composta de um senador, Luiz Carlos Prestes, e catorze deputados, entre os quais Gregório Bezerra. Em nossa casa, além da família, moravam vários camaradas do PCB.
Gregório destacava-se, dentre todos, pela
dedicação ao partido e à causa revolucionária que abraçara ainda jovem, mas
sobretudo pelo humanismo que irradiava de sua pessoa. Ele sabia compreender os
problemas de todos que o cercavam e relacionar-se bem e de maneira afetuosa
tanto com as crianças quanto com os idosos, com pessoas importantes ou
humildes, com homens ou mulheres. Gregório não incomodava; ao contrário, sempre
ajudou em nossa casa e era capaz de manter permanentemente um convívio
agradável com todos que o rodeavam. Lembro como minhas tias observavam que, de
tantos companheiros que passaram por nossa casa, nenhum deixara tão boas
lembranças e tantas saudades quanto ele.


