Índice de Seções

sábado, 7 de novembro de 2020

Revolução de Outubro: Patrimônio dos Trabalhadores do Mundo!*

   O Sete de Novembro é um marco histórico na luta dos trabalhadores contra a exploração capitalista. A revolução socialista triunfou há 103 anos na Rússia derrotando liberais, reacionários e reformistas, eternos serviçais da burguesia. Abaixo reproduzimos o comunicado de Lenin, já como Presidente do Conselho dos Comissários do Povo, conclamando operários, soldados e camponeses a redobrar a mobilização e o enfrentamento aos burgueses e seus lacaios: “Prendei e entregai ao tribunal revolucionário do povo todos os que ousem prejudicar a causa popular, quer esse prejuízo se manifeste na sabotagem (deterioração, travamento, subversão) da produção”.


Camaradas operários, soldados, camponeses, todos os trabalhadores!

Lenin

A revolução operária e camponesa venceu definitivamente em Petrogrado, dispersando e prendendo os últimos restos do reduzido número de cossacos enganados por Kérenski. A revolução venceu também em Moscou. Antes de ali terem chegado alguns comboios com forças militares vindos de Petrogrado, em Moscou os cadetes e outros kornilovistas assinaram as condições de paz, o desarmamento dos cadetes e a dissolução do Comitê de Salvação. 

Petrogrado 1917, a revolução derrotou reformistas e reacionários.


Da frente e das aldeias chegam todos os dias e a todas as horas notícias de que a maioria esmagadora dos soldados nas trincheiras e dos camponeses nos uezd apoia o novo governo e as suas leis sobre a proposta da paz e a entrega imediata da terra aos camponeses. A vitória da revolução dos operários e dos camponeses está assegurada, pois a maioria do povo já se ergueu a seu favor. 

É completamente compreensível que os latifundiários e os capitalistas, os altos empregados e funcionários, estreitamente ligados à burguesia, numa palavra, todos os ricos e todos os que estão com os ricos, acolham hostilmente a nova revolução, se oponham à sua vitória, ameacem paralisar a atividade dos bancos, sabotem ou paralisem o trabalho de diferentes instituições, o obstaculizem por todos os meios, o entravem direta ou indiretamente. Todo o operário consciente compreendeu perfeitamente que encontraríamos inevitavelmente tal resistência, toda a imprensa partidária dos bolcheviques o assinalou muitas vezes. As classes trabalhadoras não se assustarão um só instante com essa resistência, nem cederão minimamente perante as ameaças e as greves dos partidários da burguesia. 

A maioria do povo está por nós. A maioria dos trabalhadores e dos oprimidos de todo o mundo está por nós. A nossa causa é a causa da justiça. A nossa vitória está assegurada. 

A resistência dos capitalistas e dos altos empregados será quebrada. Nenhuma pessoa será privada por nós dos seus bens sem uma lei especial do Estado sobre a nacionalização dos bancos e dos consórcios. Esta lei está a ser preparada. Nenhum trabalhador perderá um só copeque; pelo contrário, ser-lhe-á prestada ajuda. O governo não quer introduzir quaisquer outras medidas que não sejam o mais rigoroso registo e controle, que não seja a cobrança sem ocultação dos impostos anteriormente estabelecidos. 

Em nome destas justas reivindicações, a imensa maioria do povo uniu-se em torno do governo provisório operário e camponês. 

Camaradas trabalhadores! Lembrai-vos que vós próprios dirigis agora o Estado. Ninguém vos ajudará se vós próprios não vos unirdes e não tomardes nas vossas mãos todos os assuntos do Estado. Os vossos Sovietes são a partir de agora órgãos do poder de Estado, órgãos plenipotenciários e decisivos. 

Uni-vos em torno dos vossos Sovietes. Reforçai-os. Lançai mãos à obra na base, sem esperar por ninguém. Estabelecei a mais rigorosa ordem revolucionária, esmagai implacavelmente tentativas de anarquia por parte de bêbados, arruaceiros, cadetes, contra-revolucionários, kornilovistas e outros semelhantes. 

Introduzi o mais rigoroso controlo da produção e do registo dos produtos. Prendei e entregai ao tribunal revolucionário do povo todos os que ousem prejudicar a causa popular, quer esse prejuízo se manifeste na sabotagem (deterioração, travamento, subversão) da produção ou na ocultação de reservas de cereais e de víveres, quer na retenção de carregamentos de cereais ou na desorganização dos caminhos-de-ferro, dos correios, telégrafos e telefones ou em geral em qualquer resistência à grande causa da paz, à causa da entrega da terra aos camponeses, à causa da aplicação do controlo operário sobre a produção e a distribuição dos produtos. 

Camaradas operários, soldados, camponeses e todos os trabalhadores! Ponde todo o poder nas mãos dos vossos Sovietes. Guardai, protegei como as meninas dos olhos, a terra, os cereais, as fábricas, os instrumentos, os produtos, os transportes — tudo isto será desde agora inteiramente vosso, patrimônio de todo o povo. Gradualmente, com o acordo e a aprovação da maioria dos camponeses, na base da experiência prática deles e dos operários, marcharemos firme e tenazmente para a vitória do socialismo, que os operários avançados dos países mais civilizados consolidarão e que dará aos povos uma paz duradoura e os libertará de todo o jugo e de toda a exploração.

19 de Novembro de 1917. 

O Presidente do Conselho de Comissários do Povo

 V. Uliánov (Lenin)

Edição: Página 1917.

*A Revolução bolchevique de Outubro (26 de Outubro, de acordo com o calendário juliano) teve início em 7 de Novembro de 1917 (no atual calendário gregoriano).


terça-feira, 3 de novembro de 2020

"Acompanhando as Massas Peronistas" (Ao abismo)

 Leandro Gamarra

   Ao presidente Alberto Fernández já não pedimos que exproprie Vicentín¹ ou institua o imposto sobre a fortuna por decreto.

Repressão para expulsar famílias sem teto em Guernica.


   O que pedimos a você neste momento do jogo é que pelo menos controle o preço de um quilo de limões, ou de uma dúzia de ovos, cada vez mais fora do alcance do bolso do trabalhador. 

   Não é uma piada. Porque se analisarmos em profundidade neste contexto de pandemia global causada por um vírus, é um verdadeiro absurdo que um assalariado não possa garantir algo tão básico quanto a possibilidade de incorporar uma boa dose de vitamina C e de proteínas em seu metabolismo e no de seus filhos através dos alimentos que ele produz. Principalmente em um país onde o solo produziu, só em 2019, 134 milhões de toneladas de cereais e oleaginosas a um valor de mercado, incluindo subprodutos de 33.962 milhões de dólares. As dores são nossas, as commodities dos outros ...

   Mas caramba, o que vamos pedir a um governo que, sem a menor vocação para deter as mãos do grande capital, deixou o destino de milhões de trabalhadores, em sua maioria precários e sem cobertura de saúde, forçados aos caprichos do deus do mercado, enfrentarem diariamente a possibilidade de contágio em troca de um salário que não dá para nada, ou de um miserável bico.

   Porque não é mais o vírus. Digamos de uma vez por todas, Alberto Fernández não consegue mais parar nem um táxi.

   Não somos astrólogos nem iluminados, bastava raciocinar com instinto e consciência de classe para anteciparmos há pouco mais de um ano, quando avisamos aos nossos e aos demais que este seria um governo de ajuste e repressão. Não é preciso ser um gênio para saber como pode se desenvolver o bloco bonapartista do esquema republicano burguês, neste caso representado pela ménage troi Alberto-Cristina-Massa, quando quem o precede na administração do Estado não deixa nem um tostão para fazer política, ou para criar a ilusão populista de uma suposta redistribuição de riqueza. Não senhores. Quando não há mais soja a 600 dólares a tonelada, ou quando o capitalismo global ainda tenta se recuperar da crise de 2008 (mais a crise que está por vir), o populismo, como sempre aconteceu na história, tira a máscara, mostra os dentes de classe e sua pouca propensão a reduzir a renda dos mais ricos.

   Nesse panorama de devastação, no dia 29 de outubro, ocorreram dois fatos, um notório, o outro nem tanto, que definem de forma categórica a política antipopular dessa continuidade Macrista denominada “Frente de todos”.

   Por trás dos fatos sinistros da triste manhã de Guernica, onde as forças repressivas a mando da patética dupla Kicillof-Berni espancaram e, inclusive balearam mulheres, crianças e homens desarmados (fato que foi festejado pelo próprio Eduardo Feinmann no seu programa de rádio), foi divulgada na área financeira a notícia de que os títulos da dívida argentina já estão sendo negociados como antes da última troca. Traduzido para quem acertadamente sente que os movimentos das finanças são um hieróglifo: após o anúncio com grande alarde da última troca com redução de juros, em pouco menos de 4 meses a Argentina se vê novamente diante da possibilidade de um calote, isto é, às portas de uma nova troca de títulos de dívida. Sem contar as duras medidas que estão negociando nas sombras com a “muito sensível diretora do FMI, porque viveu quando criança a pobreza de um país comunista” – segundo as palavras do atual presidente.

   Até o economista burguês Julián Yosovitch explica: “Quando o título é avaliado em sua paridade, o que começamos a fazer é determinar quanto valerá o novo título a ser entregue em troca como resultado do processo de reestruturação, ou o que este bônus permitirá que você recupere após a reestruturação. Ou seja, se trada de um valor de recuperação no qual o mercado especula quanto valerá cada um desses títulos quando não sirvam para outra coisa, mas para serem trocados pelos novos títulos que serão entregues em reestruturação da dívida ".

   É que além das proclamações e slogans nac & pop, quem sabe melhor do que ninguém que a dívida argentina é impagável são os mesmos usurários. E para isso contam com governos como este, ou o de Macri, que arbitram o tempo todo a favor dos seus interesses, seja emitindo e endividando internamente o Estados, seja pedindo socorro aos organismos financeiros internacionais quando já não houver mais um único peso para financiar a administração do Estado burguês. Sempre desenhando esquemas de reestruturação permanente que nada mais fazem do que aperfeiçoar o sistema de Dívida Perpétua instalado por sangue, fogo, tortura e desaparecimentos pela ditadura há quase 45 anos. Essa é a verdade. Todo o resto é papelão pintado. Ou colocado de uma forma mais marxista, essa é a realidade efetiva que se oculta por trás das aparências e as supostas “boas intenções” do bonapartismo.

   Continuar sustentando o contrário, tratando de disfarçar o que aos olhos de todo o planeta é uma nova demonstração das limitações do sistema político do capitalismo para resolver os problemas fundamentais dos trabalhadores, é seguir ajoelhando a militância diante do fato irreversível de um fracasso histórico sem precedentes. Fique claro, os dirigentes que conduziram o PC a formar parte de um governo que ajusta, reprime e assassina, são e serão os únicos responsáveis.

Notas do editor:

¹ Conglomerado agropecuário argentino que possui cerca de 25 empresas, principal cerealífera do país, está em processo de quebra e sob investigação judicial por fraude em empréstimos e fuga de capitais.

Edição e tradução: Página 1917.

Fonte: https://revistacentenario.com/acompanando-a-las-masas-peronistas-al-abismo/

sábado, 31 de outubro de 2020

Carta à Comissão Executiva do PCB

Sobre a carta de Mariguella à direção do PCB, de 1966, podemos dizer que ela guarda muitas atualidades, face a adaptação à democracia burguesa por parte dos partidos, que se dizendo "comunistas", seguem praticando o mesmo reboquismo político ideológico típico de organizações pequeno-burguesas. (nota do editor)


Carlos Marighella

1 de Dezembro de 1966

Prezados Camaradas



Escrevo-lhes para pedir demissão da atual Executiva.

Os contrastes de nossas posições políticas e ideológicas é demasiado grande e existe entre nós uma situação insustentável.

Na vida de um combatente, é preferível renunciar a um convívio formal a ter de ficar em choque com a própria consciência.

Nada tenho a opor aos camaradas pessoalmente.

No trabalho sob o título "Luta interna e dialética", publicado na Tribuna de Debate e em um folheto, procurei tornar clara a ideia que tenho sobre a necessidade do tom pessoal na luta interna.

Na verdade, nenhuma pessoa por si só está em condições de determinar a marcha da história, coisa que compete, sem nenhuma dúvida e antes de mais nada às massas trabalhadoras.

O que torna ineficaz a executiva é a sua falta de mobilidade, é não exercer o comando efetivo e direto do Partido nas empresas fundamentais do país, é não ter atuação direta entre os camponeses.

O centro de gravidade do trabalho executivo repousa em fazer reuniões, redigir notas políticas e elaborar informes. Não há assim ação planejada, a atividade não gira em torno da luta. Nos momentos excepcionais, o Partido inevitavelmente estará sem condutos para mover-se, não ouvirá a voz do comando, como já aconteceu em face da renúncia de Jânio e da deposição de Goulart.

Solicitando demissão da atual Executiva — como o faço aqui —, desejo tornar público que minha disposição é lutar revolucionariamente junto com as massas e jamais ficar à espera das regras do jogo político burocrático e convencional que impera na liderança.

1. A Circulação da Ideias

Uma das questões em que a Executiva se mostra temerosa e conservadora é quanto ao aparecimento de livros e à circulação de ideias.

Acerca de um ano e meio publiquei o livro Por que resisti à prisão.

A experiência das lideranças passadas em matéria de lançamento de livros não é boa. As direções executivas dificultavam ou impediam tal coisa por meio de subterfúgios, retendo originais ou exercendo a censura prévia.

Os camaradas da Executiva atual reclamam, entretanto, que só a posteriori tomaram conhecimento do livro mencionado.

Mesmo assim não o discutiram; sobre ele não emitiram nenhuma opinião, apesar de interpelados por militantes e outros dirigentes.

Agora, passado mais de um ano, os companheiros fazem autocrítica pela omissão e opinam sobre o livro, considerando boa a primeira parte (que faz o relato da prisão). Não concordam, porém, com a segunda parte (que expõe os assuntos ideológicos e políticos), porque esta — segundo pensam — é contra a atual linha do Partido.

Parece estranho condenar uma parte do livro e não condenar igualmente a outra.

As duas partes são indivisíveis. Uma é decorrência da outra. Há uma interação entre elas, uma relação de causa e efeito. A resistência à prisão não teria havido se os motivos políticos expostos no livro não a justificassem.

Os companheiros, porém, não atentam para essa evidência. Entram pelo terreno da abstração e do agnosticismo kantista e separam coisas inseparáveis.

E vão mais além, sustentando a tese de que um membro da liderança não pode escrever, publicamente, discordando.

A tese é stalinista, mas aí a temos de volta.

Caro leitor, ajude a divulgar o Página 1917, compartilhe nossas publicações nas suas redes sociais.

Comentários ofensivos e falsidades não serão publicados.