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segunda-feira, 14 de setembro de 2020

Na Pior das Hipóteses, a Elite Bilionária Saqueia a Classe Trabalhadora.

Nick Baker - 11/09/2020 | 

Em meio a uma pandemia global, colapso econômico sem precedentes, desemprego maciço, fome e desespero, o mercado de ações está crescendo e os mais ricos dos ricos estão mais ricos do que nunca.

Desde março, mais de 58 milhões de pessoas nos Estados Unidos se candidataram formalmente a um emprego. O Internal Revenue Service (IRS, Collector's Office, dependente do Departamento do Tesouro, NdT) prevê que a economia dos EUA terá quase 40 milhões de empregos a menos em 2021 do que o esperado antes da pandemia, devido à prolongada depressão econômica. Embora seja amplamente reconhecido que a economia não se "recuperará" com plena atividade - mesmo que os casos de coronavírus diminuam em breve - e que a atual depressão continuará por um longo tempo, as empresas estão fazendo tudo o que podem para aumentar seus preços. Ações.

Em sua busca desesperada por benefícios, muitas grandes empresas projetam demissões em massa e reconhecem que os funcionários que estão atualmente "tecnicamente desempregados" estarão desempregados no final desse período, quando retornarem. O Wall Street Journal relata que um estudo recente mostrou que "quase metade dos empregadores americanos que demitiram ou demitiram funcionários devido à Covid-19 estão planejando reduções adicionais nos próximos 12 meses". As empresas afirmam que os trabalhadores de baixa renda serão os primeiros a serem demitidos.

Segundo o Washington Post, que compara os números atuais com os da recessão Bush-Obama, iniciada em 2009, o número de trabalhadores que foram vítimas de redução salarial, desde o início da crise até 1º de julho, foi o Duplo. Mais de 10 milhões de trabalhadores do setor privado sofreram cortes salariais ou foram forçados a trabalhar meio período.

A montadora Tesla (especializada em carros elétricos, com sede em Silicon Valey, NdT) impôs um corte de 10% nos salários de todos os trabalhadores de meados de abril a julho. Durante o mesmo período, as ações da Tesla dispararam e o patrimônio líquido da fortuna do CEO Elon Musk saltou de US $ 25 bilhões para mais de US $ 100 bilhões. Salesforce, uma empresa de software (para comércio e indústria) anunciou níveis recordes de vendas em um dia e a dispensa de 1.000 funcionários no dia seguinte. As ações da empresa subiram 26%.

Outro estudo descobriu que 50% de todos os funcionários de pequenas empresas que foram demitidos desde março ainda estão sem trabalho. 28% ainda estão em licença e 22% foram dispensados ​​definitivamente. Mesmo em estatísticas de desemprego manipuladas pelo governo e gravemente subestimadas, o número de pessoas que estão no seguro-desemprego por 15 a 26 semanas é quase o dobro do que era no momento mais crítico da recessão de 2009. e exponencialmente mais alto do que em qualquer momento desde a Grande Depressão da década de 1930.

domingo, 13 de setembro de 2020

Epílogo para um Romance à Revelia do Autor*

 Jaccob Gorender

   Quando Joaquim Câmara Ferreira — já na roupagem de Toledo — o procurou em 1968, Hermínio Saccheta deve ter sentido surpresa e desconcerto. Apesar da tarimba, não esperaria que lhe batesse à porta o homem com o qual trocara os pesadíssimos insultos habituais nas dissensões internas dos comunistas.


O jornalista Hermínio Sacchetta.

   

   O contencioso entre ambos remontava aos anos 30. Após a derrota do levante de novembro de 1935, o jornalista Sacchetta (nome de guerra Paulo) dirigia o Comitê Regional de São Paulo e foi cooptado para o Birô Político do Comitê Central do PCB. Mais jovem, Câmara Ferreira (nome de guerra Alberto) trocou o curso de engenharia pela profissão de revolucionário. Em 1937, o Comitê Regional Paulista divergiu da linha preconizada pelo Comitê Central a respeito das eleições presidenciais. A divergência se aprofundou e levou a discussões agressivas e intransigentes. Com o apoio da Internacional Comunista, Lauro Reginaldo da Rocha (Bangu), secretário-geral do Comitê Central, venceu a disputa: os divergentes de São Paulo foram expulsos do partido sob a acusação de renegados trotskistas, a mais infamante para um militante comunista. Acontece que, ao travar-se a luta interna — conforme relata Heitor Ferreira Lima — , nenhum dos divergentes do Comitê Regional paulista era trotskista e, em seguida, apenas um deles — Sacchetta, precisamente — aderiu ao trotskismo.

   Tendo tomado posição ao lado do Comitê Central, Câmara Ferreira não podia mais continuar amigo de Sacchetta, com o qual se iniciara na vida partidária. A amizade se transformou em rancorosa inimizade. Da qual compartilhou Carlos Marighella, enviado a São Paulo pelo Comitê Central, em 1938, a fim de fortalecer a direção regional na luta contra os “fracionistas trotskistas”.

   Expulso do PCB, Sacchetta esteve entre os fundadores do Partido Socialista Revolucionário (PSR), ligado à Quarta Internacional (trotskista), com pouco mais de uma centena de adeptos em São Paulo e no Rio, quase todos intelectuais. Na atividade de jornalista, seu ganha-pão, fez bem-sucedida carreira. Arraigada talvez pelo hábito da clandestinidade, mantinha imperturbável postura discreta.

   Em 1952, o PSR se dissolveu. Em 1958, surgiu a Liga Socialista Independente (LSI), que editou o jornal Ação Socialista. Também um pequeno grupo, muito sectário, com poucos anos de vida. Sacchetta tomou parte nele, já com idéias algo mudadas com relação ao trotskismo. Do documento que escreveu provavelmente naquela época — Relatório Sobre Questões da Política Organizatória no Domínio Socialista — , salienta-se a análise do fracasso do trotskismo. Sua contribuição válida teria sido somente a crítica ao stalinismo. O documento propôs a formação de um partido marxista democrático, na linha de Rosa Luxemburg.

   No começo dos anos 60, formou-se o Movimento Comunista Internacionalista (MCI), cujos escassos adeptos projetavam convertê-lo em partido. Embora não adotasse o trotskismo de maneira estrita, o MCI conservou seus princípios doutrinários fundamentais: prioridade ao internacionalismo, revolução permanente, ditadura do proletariado como objetivo direto.

    Nos anos 1967-1969, já sob a ditadura militar, o MCI publicou o jornal clandestino Bandeira Vermelha, do qual saíram doze números. Comumente com dez ou doze páginas mimeografadas, difundia denúncias e argumentos contra o regime nascido do golpe de 1964. Ao mesmo tempo, tomava posição na explosiva controvérsia entre as correntes de esquerda. Principal redator do jornal, Sacchetta atacou o reboquismo e o oportunismo do PCB. Reconheceu a seriedade das facções dissidentes, porém fez crítica cerrada ao foquismo de Guevara e a todas as concepções de luta armada imediata desvinculada da preparação através das lutas de massas.

Por que, então, Hermínio Sacchetta aceitou o convite que lhe trouxe Câmara Ferreira de colaborar com a ALN? Justamente com a ALN, cuja orientação estratégica (nacional-libertadora) e tática (luta armada imediatíssima) era tão oposta àquela que vinha expondo insistentemente no Bandeira Vermelha?

   Imagino que, como tantos naquela época, Sacchetta queria realizar algo bem concreto contra a ditadura militar. Não se satisfazia com a doutrinação e a propaganda em pequenos círculos. Pôs de lado discordâncias teóricas, afastou velhos agravos e passou a ter encontros regulares com o antigo companheiro, durante muitos anos separado pela inimizade política. Esteve também com Marighella e selou o pacto da reconciliação e da luta comum. Apesar de sexagenário já abalado por um infarto, resolveu correr riscos que, por experiência, não ignorava.

   No final de janeiro de 1969, a direção da VPR teve urgente necessidade de tirar as armas expropriadas da Loja Diana do depósito secreto em que se encontravam. O depósito era conhecido de Hermes Camargo Batista, preso no episódio da pintura do caminhão em Itapecerica da Serra.

   A direção da VPR pediu a ajuda da ALN e Câmara Ferreira recorreu a Sacchetta. Este arrumou às pressas um lugar seguro. Em três viagens do Fusca guiado por Renato Caldas, foi posto a salvo o arsenal de carabinas, revólveres 38 e caixas de munição.

    Às oito e meia da manhã de 15 de agosto de 1969, um destacamento de doze guerrilheiros da ALN invadiu a estação transmissora da Rádio Nacional em Piraporinha, perto de Diadema (Grande São Paulo). Dominados os funcionários, um dos invasores interrompeu a ligação com o estúdio e ligou ao transmissor de ondas curtas uma gravação. Com o fundo musical do Hino da Internacional Comunista e do Hino Nacional, a gravação anunciou o nome de Carlos Marighella e reproduziu o manifesto lido por ele. Na meia hora em que a estação esteve sob controle da ALN, deu tempo para repetir a gravação.

   No mesmo dia 15, o jornal paulistano Diário da Noite lançou uma segunda edição com o texto integral do manifesto de Marighella captado pelo setor de radioescuta. A decisão de publicar o manifesto partiu do diretor de redação Hermínio Sacchetta. Os demais jornais se limitaram a noticiar o episódio da invasão da Rádio Nacional de São Paulo, pertencente à Rede Globo. Pegada de surpresa, a Polícia não pôde recolher das bancas senão pequena parte da segunda edição do Diário da Noite.

   Tão grave infração da censura não podia ser tolerada. A Polícia Federal prendeu o diretor de redação e o indiciou em inquérito criminal. Apesar da ficha de antecedentes nada recomendáveis do indiciado, o inquérito deu em nada e o suspeito de conivência subversiva foi solto após algumas semanas. Mas perdeu o emprego.

    Até hoje, corre a versão da casualidade da participação de Sacchetta no episódio. Agora, deve-se esclarecer em definitivo que não houve casualidade. Sacchetta recebeu previamente cópia do manifesto de Marighella das mãos de Câmara Ferreira, avisado do que ia ocorrer e da participação que a ALN esperava dele. Como não era iniciante inexperiente, Sacchetta tomou as precauções de cobertura, na previsão de que podia vir a enfrentar pesadas complicações. Orientou o setor de radioescuta do seu jornal para captar a transmissão da Rádio Nacional e, tão “surpreso” quanto os colegas, decidiu desafiar a censura: furo de reportagem é dever profissional de jornalistas.

   O furo teve repercussão internacional e a prisão do jornalista brasileiro provocou o protesto da Associação Interamericana de Imprensa.

   Romance histórico em que Jorge Amado criou uma trama ficcional inserida na reprodução da época do Estado Novo, Os Subterrâneos da Liberdade têm um dos fios da narrativa na luta interna do PCB em São Paulo, à qual me referi neste capítulo. Com facilidade se reconhecem muitas pessoas reais, que comparecem no romance como figuras de ficção. Vitor é Diógenes de Arruda, o primeiro dos honrados pela dedicatória do autor. O gigante Gonçalo é José Martins e o historiador Cícero d'Almeida é o historiador Caio Prado Jr. Filho de um operário italiano com uma negra brasileira, Carlos é Carlos Marighella, logo se vê. Apolinário é Apolônio de Carvalho, também logo se vê.

   Mas há um personagem a respeito do qual o romancista forneceu pistas superlativas para identificação do modelo real. Saquila — sobrenome quase homófono de Sacchetta — aparece no romance como líder da fração trotskista do Comitê Regional. Seu nome de guerra Paulo — o mesmo de Sacchetta na época. Vários personagens e o próprio narrador não lhe poupam qualificações aviltantes: lacaio da burguesia, bandido, traidor, delator, cretino, canalha. Um dos mais agressivos acusadores do renegado é precisamente Carlos, enviado pelo Comitê Central para reforçar a luta antitrotskista em São Paulo.

   Identificação de tal maneira transparente e insultuosa obrigou Hermínio Sacchetta a sair da habitual discrição e publicar um artigo de revide ao glorioso romancista.

   Os Subterrâneos da Liberdade representam a culminância da escola do realismo socialista na literatura brasileira. O autor pagou o preço que todos nós, militantes do PCB, pagamos ao stalinismo. Faltava-lhe a estatura psicológica e artística de Graciliano Ramos. Também militante do PCB e admirador de Stalin, Graciliano não se dobrou aos prejulgamentos e deu ao trotskista Gikovate tratamento amistoso em Memórias do Cárcere. Mas Jorge Amado tomou depois conhecimento dos crimes de Stalin, rompeu com o stalinismo e se afastou do PCB. Teria várias maneiras para reabilitar, não a Sacchetta, que não precisava ser reabilitado, mas a si próprio, com a admissão pública da injustiça cometida contra um homem de carne e osso. Nunca deu este passo.

   Romance, mesmo histórico, é ficção. Nada há a alterar. Nas muitas reimpressões de Os Subterrâneos da Liberdade, o leitor sempre encontra o vilão Saquila inimigo do herói Carlos.

   Na vida real, Sacchetta (modelo de Saquila) e Marighella (modelo de Carlos) se reconciliaram para travar o mesmo combate nas trevas da pior opressão que já se abateu sobre o povo brasileiro desde a conquista da Independência. À revelia do romancista, acrescentaram inesperado epílogo à sua narrativa.

Hermínio Sacchetta arriscou a vida na luta contra a ditadura militar.

E Jorge Amado: esteve à altura do personagem?

Fontes Informativas e Referências Bibliográficas: Entrevista de Renato Caldas. São Paulo, 14 dez. 1984 (sobre Hermínio Sacchetta); Entrevista de Guiomar Silva Lopes Callejas, cit. (sobre ocupação da Rádio Nacional pelo destacamento da ALN); Sacchetta, Hermínio. Relatório Sobre Questões da Política Organizatória no Domínio Socialista. Mimeogr.; id. "Jorge Amado e os porões da decência". Tribuna da Imprensa. Rio de Janeiro, 18/19 set. 1954; Programa e Estatutos do Movimento Comunista Internacioalista. Mimeogr.; Bandeira Vermelha. São Paulo, 1967-1969. Mimeogr.; Diário da Noite. São Paulo, 15 agos. 1969; Jornal da Tarde. 15 ago. 1969; Amado, Jorge. Os subterrâneos da liberdade. 12. ed. São Paulo, Martins, s.d.; Lima, Heitor Ferreira. Caminhos Percorridos. São Paulo, Brasiliense, 1982.p. 208-27; Rodrigues Leôncio Martins. "O PCB: os dirigentes e a organização". In: História geral da civilização brasileira, op.cit. p. 401-3; Carta de Wilson Gomes à Folha de S. Paulo, publicada na seção "A Palavra do Leitor". 15 de fev. 1984; Ramos, Graciliano. Memórias do cárcere. São Paulo, Círculo do Livro, s.d.

* Combate nas Trevas, São Paulo, Ática, 1987, p. 161 a 165.

 

sábado, 29 de agosto de 2020

Um Problema de Consciência

Alvaro Cunhal

1939

O exterior parece terrivelmente inimigo. Como se nas ruas só passassem funerais. Como se nos roubassem a família, os amigos e quedássemos sós e desamparados.

A tragédia intensa do presente emprenha a visão do futuro de sombrias expectativas. Afigura-se a muitos que no futuro haverá sempre rostos empalidecidos e cheiro a pólvora e a sangue quente. Ontem parecia que o dia de hoje havia de ser risonho e acolhedor. E agora, agora, que grande serenidade para poder crer no dia de amanhã!

 Quando a vida é incerta e baila ante os homens a perspectiva da morte, inunda-os uma ansiedade traduzível assim: «irei tão cedo deixar de ser?»

Só um grito desesperado de momento pode afirmar que esta vida não vale ser vivida. Quando se marcha em direção ao espectro, mesmo que os passos sejam voluntariosos e firmes, o bater do coração compassa a ansiedade. O futuro é negro: mas na própria negrura não há ausência de luz.

Por isso, ante os perigos, a expectativa traduz-se: «irei tão cedo deixar de ser?» E, quanto mais desalentadora é a visão do mundo que fica, quanto mais fundo é o remorso de pouco se ter feito para deixar aos filhos mais valiosa herança, mais dura e brutal aparece a visão da morte.

A admissão da estabilidade de um mundo a que se não podem mostrar os corações, força a lançar rápido e iluminado olhar ao tempo em que se esperou, em que os ora desalentados ainda tinham fé no que hoje não é presente e então parecia vir a ser futuro. Uma derrota profunda e dorida leva muitos a pensar que haverá sempre e só derrotas. Ver morrer os outros vencidos; talvez também morrer vencido. No vasto mundo muitas vezes se apagam vidas, ao procurarem derrubar velhos e endurecidos troncos. E há sempre quem represente o papel de irmão desalentado: «Para quê viver? Coisas que sempre foram e hão-de ser... O homem vive encadeado a leis irresistíveis. Inúteis os sacrifícios dos que procuram modificar os seus ditames». Como se os homens não pudessem construir a sua própria história. Como se as leis da evolução das sociedades não reservassem lugar à vontade humana.

Horas de dor, de sofrimento, de tragédia. Horas em que a expectativa da morte baila com insistência ante os olhos.

Então o homem sente necessidade de justificar a sua própria existência. Há que dar uma resposta às perguntas: «que andei e que ando por cá a fazer? Que tenho feito pelos outros e pela história?»

O homem teme deixar de ser na terra. Um sono sem despertar choca violentamente contra a estrutural vontade de viver. O ser recusa-se a aceitar o próprio desaparecimento. O apagamento total e sem apelo é incompatível com a existência atual.

Por isso, aqueles que acreditaram e não creem fogem, afastam-se, renunciam. Por isso também há homens que projetam a sua existência para além da morte. Uma alma que voe para rumo extra-terreno. Ou um ser que se desintegra para subsistir integrado em novos seres. Qualquer coisa que justifique o caminho percorrido entre o nascimento e a morte. Sonha-se para fora da terra com uma vida que nesta se não tem. Ou sonha-se com o que fica...

A morte é elemento essencial da vida. Mas isso não basta para que se aceite sem mágoa. É que a pergunta: «deixarei de ser hoje? amanhã?» — intensifica e aproxima o grande problema de consciência: «O que andei por cá fazendo? Que fica sobre a terra da minha passagem sobre a terra?»

Não satisfaz uma vida além-túmulo, mesmo que a imaginação empreste à alma asas imateriais. É esta terra donde brotou o pão que manteve o corpo e a água que matou a sede, esta terra donde tudo (mesmo pouco) nos veio e para onde iremos — e é esta humanidade a que pertencemos, este grande coletivo a que nos liga o sangue, o amor, o ódio e a interdependência — é esta terra e esta humanidade que nos exigem uma explicação.

Assim o problema da morte é o problema da vida. Depois que desapareça tudo o que de nós houve! Ou que subsista a alma! Ou que os vermes perpetuem a existência do nosso corpo!

Mas a expectativa da morte ou dum futuro de sombras perpétuas (que derrotas intensificam) chama a recordação do passado. Que poderia ter feito para que meu irmão não fosse vencido? Não lhe deixei só a ele uma tarefa que também me pertencia? E ainda... Que foi feito de toda esta energia dispendida em vida e tão sofregamente sugada? Que fica — não do meu corpo ou da minha alma — que fica das minhas ações duma vida inteira?

E a perpetuidade da nossa vida, a resistência contra um breve deixar de ser, fixa-se neste ponto vital: a justificação e perpetuidade das próprias ações, do que se fez no caminho percorrido entre o nascimento e a morte.

Haverá espetáculo mais doloroso que o do velho que olha atentamente o passado, medindo cada passo, avaliando o efeito de cada gesto, e por fim tem um grito de desalento, remorso e desespero: «uma vida inútil...?» Haverá constatação mais angustiosa que a da própria inutilidade? Não será precisamente essa constatação que as mais das vezes leva ao desejo de não ser? A inutilidade da vida é a afirmação de que nada fica das ações praticadas, de que se gastou o tempo a queimar tempo.

E então talvez valha a pena fitar a morte e esperar o para lá. A não ser que se olhe em frente — mesmo que o limite se espeque num amanhã irrefutável — e se marque uma finalidade à vida.

Quando a perspectiva da morte ou dum futuro trágico baila ante todos, até os jovens, como os velhos, olham o passado. E, depois, quantas vezes o desinteresse e a renúncia não vêm juntar a uma derrota ou a um momentâneo recuo coletivo, uma irremissível derrota individual.

...Porém, quando assim se não voga ao sabor da corrente, mas antes se escolhe caminho e se marcha, novamente o futuro sorri, à nossa vida ou à nossa morte. Sorri porque nele se adivinham marcadas as ações que vão ser praticadas. Porque a nossa vitalidade é afinal a direção do que vem. Porque se ganha confiança na perpetuidade dos nossos atos. Subsiste a alma? O apodrecimento e desintegração é a última etapa? Que interessa isso, se ganhamos uma nova eternidade!

Enquanto a humanidade for humanidade, as ações que hoje praticamos estarão sempre presentes, resistindo ao tempo e ao esquecimento a que nos votarão os nossos netos. Já os nossos corpos terão perdido a forma humana, já as suas partículas viverão separadas e dispersas e ainda nas sociedades futuras os efeitos dos efeitos das nossas ações evocarão a nossa passada existência. Com esta concepção, sentimo-nos (hoje) obreiros anônimos do futuro. Ao problema da morte, do não ser, responde satisfatoriamente a certeza consoladora deste prolongamento da nossa existência. Se se pudesse falar em eternidade, esta seria a única eternidade da nossa vida, como seres pensantes e voluntariosos.

Por isso, quanto mais sorridente é a visão do mundo que fica, quanto mais funda é a consciência de que tudo se fez para deixar aos filhos valiosa herança, menos dura e menos brutal aparece a visão da morte.

Não se trata de olhar para trás e perguntar com angústia: «que fiz? que fiz?» Trata-se de olhar em frente e perguntar com confiança e serenidade: «que poderei ainda fazer?» Não é só um exame de consciência que urge fazer: é também um apelo à consciência!

Com tal procedimento não se visa conquistar a absolvição dum juiz que após a nossa morte nos venha a ter em frente sentados no banco dos réus. Além da história, ninguém nos pedirá contas. Nem a nós, nem aos nossos espectros. Somos nós que nos devemos interrogar e julgar. Isso nos exige a vontade de viver e de perpetuar a nossa existência. Isso nos exige a gratidão. Isso nos exige a lembrança dos irmãos que morreram ao pretender desenraizar endurecidos troncos. Pode não conhecer-se o triunfo. Mas pode soçobrar-se, sem que no mundo fiquem só trevas. Talvez assim nos venha acalentar a necessidade dum sacrifício heroico. E então, porque não falar em felicidade?

Num mundo em que não há risos sem lágrimas, a felicidade nunca pode ser uma situação com caracteres próprios e momentâneos. A felicidade não pode existir, não existe, como situação particular: nem quando dependente de fatos estranhos à própria vontade; nem como ideia abstrata. A felicidade só pode existir como um atributo de toda uma vida. Só a satisfação pela vida que se vive poderá tornar feliz. Há então que não subordinar as ações ao alcance dum prazer. Mas antes amoldar a ideia de felicidade à vida que se vive.

Quando não nos sentimos meros joguetes da evolução mas, pelo contrário, sentimos que, mesmo ao de leve, as nossas energias modificam o seu ritmo. Quando sabemos ser leais, retos e solidários. Quando amamos profunda e extensamente e nos sentimos capazes de sacrificadas demonstrações do nosso amor. Somos felizes porque não desejamos outra vida, porque sentimos preenchida a própria função humana. A felicidade só existe assim como condição da consciência da própria utilidade. Não dispersar atividades. Proceder com um critério. Ser coerente em todas as atitudes. Agir com uma só linha de conduta. Ter fé na própria vontade, embora aceitando as suas determinantes. Convicção de impotência e felicidade excluem-se.

Assim far-se-á da própria vida uma vida feliz. Feliz nas horas de ascenso e nas horas de derrota. Feliz na alegria e na tristeza. Porque, na felicidade, prazer e dor interpenetram-se. Até o estertor final pode conduzir à felicidade pela convicção de que se morre bem. Não pode haver felicidade sem dor, porque esta é inseparável da vida. Que se sofra! Mas que as vontades saibam amordaçar o sofrimento para triunfar. E para isso, é necessário forjar nos peitos o desinteresse pessoal por prazeres efémeros, a rijeza de aço para lutar, o esclarecimento das exigências dos sentidos. Através da dor e da angústia, corações ao alto!

Se a felicidade é dada pela satisfação da linha de conduta, pela satisfação de que se procede bem, nada, nada, nem os gritos da própria carne esfacelada, nem lágrimas de emoção, nem a revolta instante e desesperada, pode destruí-la. Porque, acima dos próprios gritos, das próprias lágrimas, do próprio desespero, fica sempre a certeza duma vida voluntariosa e independente ou – se se preferir a expressão – reta, leal, digna.

Então suporta-se a dor e ama-se a vida. Podem as leis da natureza esfrangalhar o corpo. Podem os órgãos começar cansando. E as pernas vergando de fadiga. Amortecendo-se a percepção. O corpo começar em vida o seu desagregamento. Poderá bailar ante os olhos a perspectiva da morte e o fim especar-se num amanhã irremissível.

E haverá sempre vontade de continuar, procedendo sempre e sempre duma forma escolhida, marchando sempre para um destino humano e uma missão terrena voluntariosamente traçada. Haverá sempre anseio de continuidade e aperfeiçoamento.

Atravessar-se-ão tragédias com lágrimas nos olhos, um sorriso nos lábios e uma fé nos peitos.

Edição Página 1917.

quinta-feira, 27 de agosto de 2020

O Socialismo e a Religião

Lenin

3 de Dezembro de 1905

   A sociedade contemporânea assenta toda na exploração das amplas massas da classe operária por uma minoria insignificante da população, pertencente às classes dos proprietários agrários e dos capitalistas. Esta sociedade é escravista, pois os operários «livres», que trabalham toda a vida para o capital, só «têm direito» aos meios de subsistência que são necessários para manter os escravos que produzem o lucro, para assegurar e perpetuar a escravidão capitalista.

   A exploração econômica dos operários causa e gera inevitavelmente todos os tipos de opressão política, de humilhação social, de embrutecimento e obscurecimento da vida espiritual e moral das massas. Os operários podem alcançar uma maior ou menor liberdade política para lutarem pela sua libertação econômica, mas nenhuma liberdade os livrará da miséria, do desemprego e da opressão enquanto não for derrubado o poder do capital. A religião é uma das formas de opressão espiritual que pesa em toda a parte sobre as massas populares, esmagadas pelo seu perpétuo trabalho para outros, pela miséria e pelo isolamento. A impotência das classes exploradas na luta contra os exploradores gera tão inevitavelmente a fé numa vida melhor além-túmulo como a impotência dos selvagens na luta contra a natureza gera a fé em deuses, diabos, milagres, etc. Àquele que toda a vida trabalha e passa miséria a religião ensina a humildade e a paciência na vida terrena, consolando-o com a esperança da recompensa celeste. E àqueles que vivem do trabalho alheio a religião ensina a beneficência na vida terrena, propondo-lhes uma justificação muito barata para toda a sua existência de exploradores e vendendo-lhes a preço módico bilhetes para a felicidade celestial. A religião é o ópio do povo. A religião é uma espécie de má aguardente espiritual na qual os escravos do capital afogam a sua imagem humana, as suas reivindicações de uma vida minimamente digna do homem.

   

   Mas o escravo que tem consciência da sua escravidão e se ergueu para a luta pela sua libertação já quase deixou de ser escravo. O operário consciente moderno, formado pela grande indústria fabril, educado pela vida urbana, afasta de si com desprezo os preconceitos religiosos, deixa o céu à disposição dos padres e dos beatos burgueses, conquistando para si uma vida melhor aqui, na terra. O proletariado moderno coloca-se ao lado do socialismo, que integra a ciência na luta contra o nevoeiro religioso e liberta os operários da fé na vida de além-túmulo por meio da sua união para uma verdadeira luta por uma melhor vida terrena.

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