Alvaro Cunhal
1939
O exterior parece
terrivelmente inimigo. Como se nas ruas só passassem funerais. Como se nos
roubassem a família, os amigos e quedássemos sós e desamparados.
A tragédia intensa do
presente emprenha a visão do futuro de sombrias expectativas. Afigura-se a
muitos que no futuro haverá sempre rostos empalidecidos e cheiro a pólvora e a
sangue quente. Ontem parecia que o dia de hoje havia de ser risonho e
acolhedor. E agora, agora, que grande serenidade para poder crer no dia de
amanhã!
Quando a vida é incerta e
baila ante os homens a perspectiva da morte, inunda-os uma ansiedade traduzível
assim: «irei tão cedo deixar de ser?»
Só um grito desesperado de
momento pode afirmar que esta vida não vale ser vivida. Quando se marcha em
direção ao espectro, mesmo que os passos sejam voluntariosos e firmes, o bater
do coração compassa a ansiedade. O futuro é negro: mas na própria negrura não
há ausência de luz.
Por isso, ante os perigos, a
expectativa traduz-se: «irei tão cedo deixar de ser?» E, quanto mais
desalentadora é a visão do mundo que fica, quanto mais fundo é o remorso de
pouco se ter feito para deixar aos filhos mais valiosa herança, mais dura e
brutal aparece a visão da morte.
A admissão da estabilidade
de um mundo a que se não podem mostrar os corações, força a lançar rápido e
iluminado olhar ao tempo em que se esperou, em que os ora desalentados ainda
tinham fé no que hoje não é presente e então parecia vir a ser futuro. Uma
derrota profunda e dorida leva muitos a pensar que haverá sempre e só derrotas.
Ver morrer os outros vencidos; talvez também morrer vencido. No vasto mundo
muitas vezes se apagam vidas, ao procurarem derrubar velhos e endurecidos
troncos. E há sempre quem represente o papel de irmão desalentado: «Para quê
viver? Coisas que sempre foram e hão-de ser... O homem vive encadeado a leis
irresistíveis. Inúteis os sacrifícios dos que procuram modificar os seus
ditames». Como se os homens não pudessem construir a sua própria história. Como
se as leis da evolução das sociedades não reservassem lugar à vontade humana.
Horas de dor, de sofrimento,
de tragédia. Horas em que a expectativa da morte baila com insistência ante os
olhos.
Então o homem sente
necessidade de justificar a sua própria existência. Há que dar uma resposta às
perguntas: «que andei e que ando por cá a fazer? Que tenho feito pelos outros e
pela história?»
O homem teme deixar de ser
na terra. Um sono sem despertar choca violentamente contra a estrutural vontade
de viver. O ser recusa-se a aceitar o próprio desaparecimento. O apagamento
total e sem apelo é incompatível com a existência atual.
Por isso, aqueles que
acreditaram e não creem fogem, afastam-se, renunciam. Por isso também há homens
que projetam a sua existência para além da morte. Uma alma que voe para rumo
extra-terreno. Ou um ser que se desintegra para subsistir integrado em novos
seres. Qualquer coisa que justifique o caminho percorrido entre o nascimento e
a morte. Sonha-se para fora da terra com uma vida que nesta se não tem. Ou
sonha-se com o que fica...
A morte é elemento essencial
da vida. Mas isso não basta para que se aceite sem mágoa. É que a pergunta:
«deixarei de ser hoje? amanhã?» — intensifica e aproxima o grande problema de
consciência: «O que andei por cá fazendo? Que fica sobre a terra da minha
passagem sobre a terra?»
Não satisfaz uma vida
além-túmulo, mesmo que a imaginação empreste à alma asas imateriais. É esta
terra donde brotou o pão que manteve o corpo e a água que matou a sede, esta
terra donde tudo (mesmo pouco) nos veio e para onde iremos — e é esta
humanidade a que pertencemos, este grande coletivo a que nos liga o sangue, o
amor, o ódio e a interdependência — é esta terra e esta humanidade que nos
exigem uma explicação.
Assim o problema da morte é
o problema da vida. Depois que desapareça tudo o que de nós houve! Ou que
subsista a alma! Ou que os vermes perpetuem a existência do nosso corpo!
Mas a expectativa da morte
ou dum futuro de sombras perpétuas (que derrotas intensificam) chama a
recordação do passado. Que poderia ter feito para que meu irmão não fosse
vencido? Não lhe deixei só a ele uma tarefa que também me pertencia? E ainda...
Que foi feito de toda esta energia dispendida em vida e tão sofregamente
sugada? Que fica — não do meu corpo ou da minha alma — que fica das minhas ações
duma vida inteira?
E a perpetuidade da nossa
vida, a resistência contra um breve deixar de ser, fixa-se neste ponto vital: a
justificação e perpetuidade das próprias ações, do que se fez no caminho
percorrido entre o nascimento e a morte.
Haverá espetáculo mais
doloroso que o do velho que olha atentamente o passado, medindo cada passo,
avaliando o efeito de cada gesto, e por fim tem um grito de desalento, remorso
e desespero: «uma vida inútil...?» Haverá constatação mais angustiosa que a da
própria inutilidade? Não será precisamente essa constatação que as mais das
vezes leva ao desejo de não ser? A inutilidade da vida é a afirmação de que
nada fica das ações praticadas, de que se gastou o tempo a queimar tempo.
E então talvez valha a pena
fitar a morte e esperar o para lá. A não ser que se olhe em frente — mesmo que
o limite se espeque num amanhã irrefutável — e se marque uma finalidade à vida.
Quando a perspectiva da
morte ou dum futuro trágico baila ante todos, até os jovens, como os velhos,
olham o passado. E, depois, quantas vezes o desinteresse e a renúncia não vêm
juntar a uma derrota ou a um momentâneo recuo coletivo, uma irremissível
derrota individual.
...Porém, quando assim se
não voga ao sabor da corrente, mas antes se escolhe caminho e se marcha,
novamente o futuro sorri, à nossa vida ou à nossa morte. Sorri porque nele se
adivinham marcadas as ações que vão ser praticadas. Porque a nossa vitalidade é
afinal a direção do que vem. Porque se ganha confiança na perpetuidade dos
nossos atos. Subsiste a alma? O apodrecimento e desintegração é a última etapa?
Que interessa isso, se ganhamos uma nova eternidade!
Enquanto a humanidade for
humanidade, as ações que hoje praticamos estarão sempre presentes, resistindo
ao tempo e ao esquecimento a que nos votarão os nossos netos. Já os nossos
corpos terão perdido a forma humana, já as suas partículas viverão separadas e
dispersas e ainda nas sociedades futuras os efeitos dos efeitos das nossas ações
evocarão a nossa passada existência. Com esta concepção, sentimo-nos (hoje)
obreiros anônimos do futuro. Ao problema da morte, do não ser, responde
satisfatoriamente a certeza consoladora deste prolongamento da nossa
existência. Se se pudesse falar em eternidade, esta seria a única eternidade da
nossa vida, como seres pensantes e voluntariosos.
Por isso, quanto mais
sorridente é a visão do mundo que fica, quanto mais funda é a consciência de
que tudo se fez para deixar aos filhos valiosa herança, menos dura e menos
brutal aparece a visão da morte.
Não se trata de olhar para
trás e perguntar com angústia: «que fiz? que fiz?» Trata-se de olhar em frente
e perguntar com confiança e serenidade: «que poderei ainda fazer?» Não é só um
exame de consciência que urge fazer: é também um apelo à consciência!
Com tal procedimento não se
visa conquistar a absolvição dum juiz que após a nossa morte nos venha a ter em
frente sentados no banco dos réus. Além da história, ninguém nos pedirá contas.
Nem a nós, nem aos nossos espectros. Somos nós que nos devemos interrogar e
julgar. Isso nos exige a vontade de viver e de perpetuar a nossa existência.
Isso nos exige a gratidão. Isso nos exige a lembrança dos irmãos que morreram
ao pretender desenraizar endurecidos troncos. Pode não conhecer-se o triunfo.
Mas pode soçobrar-se, sem que no mundo fiquem só trevas. Talvez assim nos venha
acalentar a necessidade dum sacrifício heroico. E então, porque não falar em
felicidade?
Num mundo em que não há
risos sem lágrimas, a felicidade nunca pode ser uma situação com caracteres
próprios e momentâneos. A felicidade não pode existir, não existe, como
situação particular: nem quando dependente de fatos estranhos à própria
vontade; nem como ideia abstrata. A felicidade só pode existir como um atributo
de toda uma vida. Só a satisfação pela vida que se vive poderá tornar feliz. Há
então que não subordinar as ações ao alcance dum prazer. Mas antes amoldar a
ideia de felicidade à vida que se vive.
Quando não nos sentimos
meros joguetes da evolução mas, pelo contrário, sentimos que, mesmo ao de leve,
as nossas energias modificam o seu ritmo. Quando sabemos ser leais, retos e
solidários. Quando amamos profunda e extensamente e nos sentimos capazes de
sacrificadas demonstrações do nosso amor. Somos felizes porque não desejamos
outra vida, porque sentimos preenchida a própria função humana. A felicidade só
existe assim como condição da consciência da própria utilidade. Não dispersar atividades.
Proceder com um critério. Ser coerente em todas as atitudes. Agir com uma só
linha de conduta. Ter fé na própria vontade, embora aceitando as suas
determinantes. Convicção de impotência e felicidade excluem-se.
Assim far-se-á da própria
vida uma vida feliz. Feliz nas horas de ascenso e nas horas de derrota. Feliz
na alegria e na tristeza. Porque, na felicidade, prazer e dor interpenetram-se.
Até o estertor final pode conduzir à felicidade pela convicção de que se morre
bem. Não pode haver felicidade sem dor, porque esta é inseparável da vida. Que
se sofra! Mas que as vontades saibam amordaçar o sofrimento para triunfar. E
para isso, é necessário forjar nos peitos o desinteresse pessoal por prazeres
efémeros, a rijeza de aço para lutar, o esclarecimento das exigências dos
sentidos. Através da dor e da angústia, corações ao alto!
Se a felicidade é dada pela
satisfação da linha de conduta, pela satisfação de que se procede bem, nada,
nada, nem os gritos da própria carne esfacelada, nem lágrimas de emoção, nem a
revolta instante e desesperada, pode destruí-la. Porque, acima dos próprios
gritos, das próprias lágrimas, do próprio desespero, fica sempre a certeza duma
vida voluntariosa e independente ou – se se preferir a expressão – reta, leal,
digna.
Então suporta-se a dor e
ama-se a vida. Podem as leis da natureza esfrangalhar o corpo. Podem os órgãos
começar cansando. E as pernas vergando de fadiga. Amortecendo-se a percepção. O
corpo começar em vida o seu desagregamento. Poderá bailar ante os olhos a perspectiva
da morte e o fim especar-se num amanhã irremissível.
E haverá sempre vontade de
continuar, procedendo sempre e sempre duma forma escolhida, marchando sempre
para um destino humano e uma missão terrena voluntariosamente traçada. Haverá
sempre anseio de continuidade e aperfeiçoamento.
Atravessar-se-ão tragédias
com lágrimas nos olhos, um sorriso nos lábios e uma fé nos peitos.
Edição Página 1917.