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terça-feira, 2 de junho de 2020

A Origem do Homem*

Lima Barreto**
25/06/1921

Excelentíssimo Senhor doutor Charles Hill Tout, Los Angeles, Califórnia, M.E. Presente.
Lima Barreto
     Li num jornal daqui, um telegrama, naturalmente mandado expedir por uma das agências poderosas da nação de que Vossa Excelência é filho, que Vossa Excelência havia feito maravilhosas descobertas sobre a origem desta nossa pobre humanidade.

     Diz o citado telegrama que Vossa Excelência vai comunicar à Sociedade Real do Canadá essa sua extraordinária descoberta. Tenho como grande cousa essa sociedade real desde que ela asseverou a existência do Eozon canadensis e também a de trilobitas em todos os terrenos devonianos. Vossa Excelência sabe que, no Brasil, há terrenos devonianos sem haver trilobitas; mas o Instituto Americano de Investigações assevera que isso não é possível e vai decretar, por intermédio de Vossa Excelência, que existiu um tal fóssil chamado Eoanthopus ou o "homem do amanhecer", cujos vestígios Vossa Excelência tem na mão e com os quais Vossa Excelência pretende acabar com a teoria absurda de que nós todos temos a mesma origem.

     Eu não me abalo a contestar o telegrama de uma agência dos Estados Unidos; mas pondero que as maiores descobertas deste mundo, mesmo hoje, nunca foram transmitidas pelo telégrafo, com a pressa que mereceu a de Vossa Excelência.

     Se fosse negócio de câmbio, de jogo da bolsa, ou até as memórias sensacionais de Lady Asquith, eu via bem o interesse do telegrafo em transmitir a notícia. Entretanto não se trata de semelhante cousa, mas de monogenismo e poligenismo - cousas a que o próprio Assis Chateaubriand e o Leão Veloso, qualquer deles, estão pouco habituados a tratar.
     
     Como é então que a United Press ou o que for se apressara em transmitir a notícia do que Vossa Excelência havia descoberto antes o Pithecanthropus erectus; antes do homem da caverna do Neandertal, da do Cro-Magnon, um homem quase perfeito, nas dunas da Inglaterra?

     Nós estamos em época de guerra. Não há dia em que não nos cheguem telegramas, dizendo que, tal ou qual cidade dos Estados Unidos, se massacraram tantos ou quantos negros.

     Eu leio e fico pasmo; agora, porém, não fico, pois li o aviso telegráfico de Vossa Excelência e retive este trecho que aí vai, para edificação dos povos:
         "De acordo com o grande princípio singenético mais comumente conhecido como lei de Baer, sabemos que os crânios dos jovens da raça Neandertal e os jovens dos antropomorfos ou monos semelhantes ao homem, são diferentes dos de seus progenitores. O princípio demonstrado pela lei referida significa que a ontogenia  do individuo, ou história da evolução das espécimens recapitula a filogenia da raça ou história da evolução das espécies - é nisto que a lei de Baer faz luz sobre o problema - que os jovens de qualquer espécie representam mais verdadeiramente e intimamente que os adultos da espécie, o verdadeiro tipo ancestral de que provem".
     Toda esta embrulhada de Baer, antropomorfos, etc., etc., quer dizer que Vossa Excelência admite como justas as execuções em massa de negros e mulatos que se fazem comumente nos Estados Unidos.

     Fique, porem, Vossa Excelência certo que isso é uma cousa que lá se faz, mas há de haver lugares no mundo, em que, apesar do seu problemático homem das dunas da Inglaterra do tempo do plioceno, elas não se farão assim tão facilmente.

      Criado, etc.

* Feiras e Mafuás; Lima Barreto; Obras Completas; p. 87, Editora Brasiliense, 1956.

** Afonso Henriques de Lima Barreto, mais conhecido como Lima Barreto (Rio de Janeiro, 13 de maio de 1881 — Rio de Janeiro, 1 de novembro de 1922) foi um jornalista e escritor brasileiro, que publicou romances, sátiras, contos, crônicas e uma vasta obra em periódicos, principalmente em revistas populares ilustradas e periódicos anarquistas do início do século XX. A maior parte de sua obra foi redescoberta e publicada em livro após sua morte por meio do esforço de Francisco de Assis Barbosa e outros pesquisadores, levando-o a ser considerado um dos mais importantes escritores brasileiros. (Wikipédia)

domingo, 31 de maio de 2020

Origem e Declínio do Capitalismo*

Jorge Beinstein**
Maio de 2013

Retorno à origem

   Em certos rituais funerários de tempos remotos os mortos eram colocados em posição fetal. Encontraram-se por exemplo restos de homens do neandertal sepultados dessa maneira com a cabeça a apontar para o Oeste e os pés para o Leste. Algumas hipóteses antropológicas sustentam que essa disposição do cadáver se relacionava com a crença no renascimento do morto. A civilização burguesa à medida que avança a sua senilidade parece reiterar esses ritos. Preparando-se para o desenlace final aponta a cabeça para a sua origem ocidental e vai acomodando o corpo degradado procurando recuperar as formas pré-natais, tentando talvez assim conseguir uma vitalidade irremediavelmente perdida.
   
   O fim e a origem aparentam convergir, mas o ancião não consegue voltar ao passado e sim, antes, reproduzi-lo de maneira grotesca e decadente. Rumo ao final do seu percurso histórico o capitalismo volta-se prioritariamente para as finanças, o comércio e o militarismo no seu nível mais aventureiro "copiando" seu início quando o Ocidente conseguiu saquear recursos naturais,sobre-explorar populações e realizar genocídios acumulando desse modo riquezas desmesuradas em relação ao seu tamanho. Isso lhe permitiu expandir seus mercados internos, investir em novas formas produtivas, desenvolver instituições, capacidade científica e técnica. Em suma, construir a "civilização" que levou Voltaire a dizer:   "a civilização não suprime a barbárie, aperfeiçoa-a".

   A decadência do mundo burguês de certo modo imita a sua origem, mas não o faz a partir de um protagonista jovem e sim decrépito e num contexto completamente diferente:   o da gestação era um planeta rico em recursos humanos e naturais disponíveis, virgem do ponto de vista dos apetites capitalistas. O atual é um contexto saturado de capitalismo, com fortes espaços resistentes ou pouco manejáveis na periferia, com numerosos recursos naturais decisivos em rápido esgotamento e um meio ambiente global desarranjado.

Fim de ciclo e  Decadência: do capitalismo industrial ao parasitismo.

   Toda a história do capitalismo é atravessada por numerosas crises de curta, média e longa duração, de gestação, de nascimento, de crescimento, de maturidade, de decadência, sectorial, pluri-sectorial, geral, etc. A atual conjuntura global costuma ser descrita empregando o termo crise (do neoliberalismo, financeira, sistêmica, do capitalismo, de civilização...). Trata-se realmente de uma crise ou de algo mais? Encontramo-nos perante uma turbulência devastadora ou não tão truculenta mas anunciadora de uma nova ordem mundial capitalista, ou seja, de uma regeneração sistêmica ou antes do canto do cisne de uma civilização caduca? No primeiro caso cabia falar de crise de reconversão, de destruição criadora no sentido shumpeteriano, no segundo poderia em princípio ser definida com uma só palavra:   decadência.

   Os conceitos de crise e decadência são ambíguos, o seu uso não resolve completamente as interrogações que coloca a descrição da realidade atual. Em geral falamos de crise quando enfrentamos uma turbulência ou perturbação importante do sistema social. O conceito de decadência costuma ser associado à ideia de irreversibilidade, de trajetória iniludível, de caminho mais ou menos lento, acidentado ou calmo, rumo à extinção, rumo ao final. Contudo, a história mostra tanto longos processos de declínio que culminam com o fim de uma sociedade ou civilização como fenômenos vistos como decadências mas que em algum momento se convertem em renascimento, no início de uma segunda juventude. Sobretudo durante certos períodos de transição cultural onde se combina o velho dominante mas ainda hegemônico com o novo ascendente ainda que suportando derrotas, fracassos próprios das experiências demasiado jovens, demasiado dependentes do "senso comum" estabelecido pelas antigas verdades capazes de sobreviver durante muito tempo ao seu crescente divórcio com a realidade.

quinta-feira, 28 de maio de 2020

Entrevista com Ivan Pinheiro, parte III.

A Guerra Continua*

LUIZ RENATO MARTINS**

                                                                                                     À memória de Chico de Oliveira

Brasil 2013: a floresta seca começa a arder
  
As grandes e surpreendentes manifestações de junho de 2013,[i] em 22 capitais de estados e 400 cidades do Brasil, com três milhões de trabalhadores envolvidos em greves, foram as maiores no Brasil desde o movimento das Diretas Já (1984), este último abortado em rito sumário pelo MDB que o trocou pela falsa “Transição” via Colégio Eleitoral.

Os protestos de 2013 mudaram decisivamente o panorama político interno, assim como a imagem global do Brasil. Até então, o Brasil era tido internacionalmente como exemplo de democracia consolidada e estável, e além disso, sua economia, como fundamentalmente próspera. Duas capas de The Economist exemplificam tal mudança da imagem do Brasil no exterior, observada a partir de junho de 2013. Assim, em novembro de 2009, a revista publicou em sua capa a seguinte chamada: “O Brasil decola (Brazil takes off)”. Pelo contrário, na capa de setembro de 2013 depois dos protestos massivos, estala uma dúvida: “O Brasil gorou? (Has Brazil blown it?)”.

Porém, bem antes de tais comentários (no fim das contas em sintonia com a busca de oportunidades de investimento rentáveis) formulou-se um alerta veemente, associado a uma crítica fulminante, por parte do sociólogo e fundador do PT Francisco de Oliveira, ex-membro das equipes que haviam preparado os planos de governo do PT nas campanhas dos anos 1980 e 1990. Assim, em ensaio publicado em junho de 2003,[ii] apenas seis meses após a posse de Lula na presidência, o autor diagnosticou o desenvolvimento no Brasil de um novo padrão de acumulação de capital, baseado na apropriação de fundos públicos, transferências patrimoniais, privatizações e outras formas de “acumulação truncada”. Para concluir, assinalou que um tal processo era conduzido por uma “nova classe”: sindicalistas atuando concertadamente com especialistas em finanças e conselheiros dos fundos de pensões.

Deste modo, o que Francisco de Oliveira observou, já em marcha na primeira administração de Lula, não foi outra coisa senão a articulação de dirigentes do PT, e lideranças sindicais associadas, com o capital monopolista, para a gestão compartilhada dos fundos de pensão, nos quais o governo como grande empregador exercia papel decisivo. Tais fundos, muitos dos quais formados por poupanças dos empregados de grandes empresas estatais, movimentavam somas gigantescas, equivalentes às dos maiores players do mercado financeiro de São Paulo.

O sentido da advertência de Oliveira demorou dez anos para chegar às ruas, mas quando se tornou tangível e evidente, a multidão se apoderou das ruas tempestuosamente. O que pretendiam os heterogêneos manifestantes de 2013, em meio a queixas diversas e expressões de descontentamento generalizado?

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