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sábado, 25 de abril de 2020

Abril Traído*

Francisco Martins Rodrigues**


O verão quente

Por uma série de abalos em cadeia, o projeto regenerador e ordeiro do movimento dos capitães fora-se desmoronando. Num ano, a vaga das ocupações, saneamentos, manifestações e greves tornara o país irreconhecível. Era uma vaga pacífica, que aclamava inebriada o MFA, mas que galgava mesmo assim todos os diques. A bela revolução dos cravos descambava em pesadelo para os amantes da ordem.
Francisco Martins Rodrigues
No Verão, a originalidade da via portuguesa para o socialismo atingia o limite extremo. Coexistiam em fantástico equilíbrio ocupações maciças de terras e leis antigreve; sequestros de patrões e convites ao investimento; órgãos de poder popular e declarações de fidelidade à NATO. O país parecia encaminhar-se para uma situação de duplo poder e para um confronto revolucionário.

Seis meses mais tarde, tudo estava terminado e a burguesia felicitava-se por ter dominado a ameaça totalitária sem efusão de sangue. O que se passou afinal nesses seis meses para tornar possível uma tal reviravolta? Ou, em termos mais gerais: como pôde o proletariado português, mantido em menoridade por meio século de circunspecta oposição democrática ao fascismo, atingir tão facilmente os píncaros de 75? E como pôde deixar-se expulsar deles de forma tão infantilmente vergonhosa, até chegar às misérias do tempo atual?

É impossível aprender seja o que for do Verão de 75 se não se puser no centro da análise a oposição de interesses entre o proletariado, motor dos acontecimentos, e a pequena burguesia «revolucionária», sua condutora.

Isto, é claro, parece à primeira vista insuportavelmente «sectário». O 25 de Novembro foi obra de uma amálgama de forças social-democratas, liberais e reacionárias, animadas pelo PS e apadrinhadas pela social-democracia alemã e pelo embaixador Carlucci. A que propósito lançar responsabilidades sobre as forças de esquerda, que podem ter cometido erros mas foram, de qualquer modo, a vanguarda possível do movimento?

E, no entanto, o êxito fácil demais do 25 de Novembro, que é a sua principal originalidade, obriga a examinar com mais atenção a política seguida pelo PCP, pela ala esquerda do MFA e pelos grupos da «esquerda revolucionária». O objectivo destas notas é mostrar que essas forças aplicaram, em nome dos interesses populares, uma táctica que lhes era contrária e que exprimia, em última análise, a ânsia pequeno-burguesa por encontrar uma saída intermédia entre revolução e contra-revolução.

Aquilo a que se assistiu no Verão de 75 foi a uma grande vaga de fundo, espontânea, anárquica, mas perfeitamente coerente, pela qual a pequena burguesia «revolucionária» começou por manietar politicamente o proletariado, para poder ser ela a dirigir o processo, e acabou por assistir, angustiada mas também aliviada, à parada dos Chaimites.

Por muito impopular que esta conclusão apareça aos olhos dos últimos fiéis da aliança Povo/MFA, é a ela que os fatos conduzem. Há que examiná-la. Porque é ai, na avaliação do papel da pequena burguesia «revolucionária», que se pode entender o fundo da luta de classes em 75 e destrinchar, no nebuloso terreno das «conquistas de Abril», o que era a favor e o que era contra o proletariado.

quarta-feira, 22 de abril de 2020

Sobre a Nossa Revolução*

Lenin**

   Folheei nestes dias as notas de Sukhánov sobre a revolução. O que salta sobretudo à vista é o pedantismo de todos os nossos democratas pequeno-burgueses, bem como de todos os heróis da II Internacional. Sem falar já de que são extraordinariamente covardes e de que mesmo os melhores deles se enchem de reservas quando se trata do menor desvio relativamente ao modelo alemão, sem falar já desta qualidade de todos os democratas pequeno-burgueses, suficientemente manifestada durante toda a revolução, salta à vista a sua servil imitação do passado.
   Todos eles se dizem marxistas, mas entendem o marxismo duma maneira extremamente pedante. Não compreenderam de modo nenhum aquilo que é decisivo no marxismo: precisamente a sua dialéctica revolucionária.*** Não compreenderam em absoluto nem mesmo as indicações diretas de Marx, dizendo que nos momentos de revolução é necessária a máxima flexibilidade, e nem sequer notaram, por exemplo, as indicações de Marx na sua correspondência, referente, se bem me recordo, a 1856, na qual expressava a esperança de que a guerra camponesa na Alemanha, capaz de criar uma situação revolucionária, se unisse ao movimento operário — eludem mesmo esta indicação direta, dando voltas em torno dela como o gato em volta do leite quente.

   Em toda a sua conduta revelam-se uns reformistas covardes que temem afastar-se da burguesia e, mais ainda, romper com ela, e ao mesmo tempo ocultam a sua covardia com a fraseologia e a jactância mais descarada. Mas, mesmo do ponto de vista puramente teórico, salta à vista em todos eles a sua plena incapacidade de compreender a seguinte ideia do marxismo: viram até agora um caminho determinado de desenvolvimento do capitalismo e da democracia burguesa na Europa Ocidental. E eis que eles não são capazes de imaginar que este caminho só pode ser considerado como modelo mutatis mutandis(1), só com algumas correções (absolutamente insignificantes, do ponto de vista do curso geral da história universal).

   Primeiro, uma revolução ligada à primeira guerra imperialista mundial. Numa tal revolução deviam manifestar-se traços novos ou modificados Precisamente em consequência da guerra, porque nunca houve no mundo tal guerra em tal situação. Vemos que até agora a burguesia dos países mais ricos não pode organizar relações burguesas «normais» depois dessa guerra, enquanto os nossos reformistas, pequenos burgueses que se armam em revolucionários, consideravam e consideram como um limite (além disso insuperável) as relações burguesas normais, compreendendo esta «norma» duma maneira extremamente estereotipada e estreita.

   Segundo, é-lhes completamente alheia qualquer ideia de que dentro das leis gerais do desenvolvimento em toda a história mundial não estão de modo nenhum excluídas, mas, pelo contrário, pressupõem-se determinadas etapas de desenvolvimento que apresentam peculiaridades, quer na forma quer na ordem desse desenvolvimento. Nem sequer lhes passa pela cabeça, por exemplo, que a Rússia, situada na fronteira entre os países civilizados e os países que pela primeira vez são arrastados definitivamente por esta guerra para o caminho da civilização, os países de todo o Oriente, os países não europeus, que a Rússia podia e devia, por isso, revelar certas peculiaridades, que naturalmente estão na linha geral do desenvolvimento mundial, mas que distinguem a sua revolução de todas as revoluções anteriores dos países da Europa Ocidental e que introduzem algumas inovações parciais ao deslocar-se para os países orientais.

Lenin, documentário de imagens.





Lenin, 150 anos!

22/04/1870  - 22/04/2020

Vladimir Ilyich Ulianov, o "Lenin": Revolucionário marxista, político comunista, principal dirigente e teórico do Partido Bolchevique, líder da Revolução de Outubro na Rússia em 1917, a primeira revolução socialista vitoriosa no mundo, fundador da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS).

terça-feira, 21 de abril de 2020

Saudações aos Comunistas Italianos, Franceses e Alemães

Lenin*
Outubro de 1919.


São, de fato, escassas, as notícias que recebemos do estrangeiro. O bloqueio organizado pelas feras imperialistas está em pleno andamento; a violência das maiores potências mundiais voltou-se contra nós, na esperança de repor a ordem dos exploradores. E esta fúria bestial dos capitalistas mundiais e da Rússia encontra-se camuflada, desnecessário será dizer, em frases que falam do sublime significado de “democracia”! O campo explorador é fiel a si mesmo; retrata a democracia burguesa como sendo a “democracia” em geral. E todos os filisteus e pequeno-burgueses, desde Friedrich Adler, Karl Kautsky, à maioria dos líderes do Independente [1] Partido Social Democrata da Alemanha (ou seja, independente do proletariado revolucionário, mas dependente dos pequeno-burgueses), juntaram-se ao coro.
Lenin
Contudo, apesar das raras notícias do exterior recebidas na Rússia, grande é a alegria com que seguimos o avanço gigantesco, universal, do comunismo entre os operários de todos os países do mundo e o rompimento que essas massas fizeram com os líderes corruptos e traiçoeiros que, de Scheidemann a Kautsky, se juntaram à burguesia.

Tudo o que sabemos do Partido Italiano é que o seu Congresso decidiu, por uma grande maioria, filiar-se na Terceira Internacional e adotar o programa da ditadura do proletariado. Apesar disso, o Partido Socialista Italiano, que, na prática, se alinhou com o comunismo, mantém, ainda, para nosso pesar, o seu nome antigo. Calorosas saudações aos trabalhadores italianos e ao seu partido!

Tudo o que sabemos da França é que, só na cidade de Paris, já existem dois jornais comunistas: L’Internationale, editado por Raymond Péricat, e Le Titre censuré, editado por Georges Anquetil. Uma série de organizações proletárias já se encontram filiadas na Terceira Internacional. As simpatias das massas operárias estão, sem dúvida, do lado do comunismo e do poder soviético.

Dos comunistas alemães, apenas sabemos que jornais comunistas são publicados em várias cidades. Muitos levam o nome Die Rote Fahne [Nota do Tradutor: Bandeira Vermelha]. O berlinense Rote Fahne, uma publicação ilegal, luta heroicamente contra os verdugos Scheidemann e Noskes, os algozes que se submetem às ordens da burguesia, tal como os independentes o fazem através das palavras e da sua propaganda “ideológica” (ideologia pequeno-burguesa).

A luta heroica do Die Rote Fahne, o jornal comunista berlinense, exige toda a nossa admiração. Vemos, finalmente, na Alemanha, socialistas honestos e sinceros, que, apesar de toda a perseguição, apesar do assassinato dos seus melhores líderes, permanecem firmes e inflexíveis! Vemos, finalmente, na Alemanha, trabalhadores comunistas travando uma luta heroica que merece, de fato, a designação de “revolucionária”! Surgiu, finalmente, na Alemanha, entre as fileiras das massas proletárias, uma força para quem as palavras “revolução proletária” se tornaram uma verdade!

Saudações aos Comunistas Alemães!

Os Scheidemann e os Kautsky, os Henners e os Friedrich Adlers, apesar da grande diferença que possa existir entre estes senhores, no sentido da integridade pessoal, todos revelaram ser, da mesma forma, pequeno-burgueses e os mais vergonhosos traidores do socialismo, defensores da burguesia. Apesar de em 1912 todos eles terem participado na elaboração e na assinatura do Manifesto de Basileia “sobre a guerra imperialista que se aproxima”, e de todos eles terem, nessa altura, falado de “revolução proletária”, todos provaram, na prática, ser pequeno-burgueses democratas e cavaleiros de ilusões filistino-republicanas, democrático-burguesas, cúmplices da burguesia contrarrevolucionária.

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