Índice de Seções

domingo, 3 de junho de 2018

Cadê o Trem?

Antonio Pastori*  

O recente protesto dos caminhoneiros contra o aumento excessivo dos combustíveis levou vários comentaristas das mídias a trazerem para o debate a questão do transporte ferroviário. Muitos afirmam que se a carga fosse por ferrovia não haveria essa paralisação, porque o custo do transporte é menor, que o trem é o modo ideal para transportar cargas por longas distâncias (entre 200 e 1.000 km), é menos sujeito a acidentes e assaltos, polui menos, etc. Os comentários também lembravam a opção dos governantes pelo modo rodoviário e o consequente abandono das ferrovias a partir dos anos 1960. Como resultado dessa escolha insana, vale lembrar a crescente estatística de mortes nas estradas: mais de 50 mil/ano. Falou-se também da eficiência do transporte ferroviário sem, contudo, apresentarem os números que o comprovem.
A privatização acelerou a destruição do patrimônio ferroviário brasileiro.
Vejamos alguns dados comparativos para se transportar o equivalente a seis mil toneladas de carga por mil quilômetros. Um trem precisaria de 86 vagões; pelo modo rodoviário, seriam necessárias 172 carretas; o trem consumiria 36 mil litros de diesel; os caminhões entre 90 a 100 mil litros; o espaço ocupado pelo trem seria de 1,6 km; os caminhões formariam uma fila de 3,5 km; bastaria um único maquinista para conduzir essa carga por trem, contra 172 caminhoneiros, sem contar os ajudantes.

Os mais precipitados diriam que o trem eliminaria empregos. Ledo engano: os caminhões continuariam com seu papel importante na integração dos modos, porém percorrendo distâncias menores, podendo o caminhoneiro fazer mais viagens/dia. O caminhão, graças a sua enorme mobilidade, recolheria as cargas na origem levando-as até um Centro de Distribuição-CD para serem embarcadas no trem e levadas até outro CD, onde seria transbordada novamente para os caminhões levarem-nas ao seu destino final, não muito longe do CD. Voilà!

Esse modelo de integração modal (trem+caminhão) é simples, perfeito e funciona a contento em muitos lugares do mundo desenvolvido, inclusive nos BRICs. Mas, como jabuticaba só tem no Brasil, ainda não seria possível implanta-lo, simplesmente porque no nosso modelo jabuticaba ferroviária não há capacidade (trens) disponível para transportar carga geral. No Brasil funciona a lógica do corredor de exportação para transportar commodities como minério de ferro, aço, soja, milho e outras. Mais de 85% da carga transportada por ferrovia é produzida por empresas que são acionistas das concessionárias ferroviárias, que exploram a malha desde 1996.

Traduzindo em números, o Brasil movimentou 1.656 bilhão de toneladas por km, em 2015. Deste total 1.076 bilhão (65%) foi carregado via rodoviária e o restante por outros modos, sendo apenas 20% por trilhos. Em resumo, não tem espaço na ferrovia para carga geral como alimentos, bebidas, remédios, eletro-eletrônicos, cimento, tijolo, material construção civil, móveis, automóveis, produtos químicos, combustíveis, etc.
Teoricamente, se esse modelo de integração rodo-ferroviário estivesse funcionando em proveito da sociedade, a greve desses dias não teria causado tantos impactos negativos no abastecimento, até porque, nesse modelo racional haveria trens de passageiros de média e longa distância ligando o nosso País continental e, portanto, bem menos veículos e acidentes nas estradas.

Mas, infelizmente, não há chances de mudar tão cedo, pois o governo adora esse modelo: são divisas que a ferrovia trás para engordar a Balança Comercial. Inclusive o governo quer renovar as atuais concessões da jabuticaba ferroviária por mais trinta anos. Oremos, pois, para não sermos incluídos nas estatísticas de mortes nas estradas!

* Mestre em economia e Pós-graduado em Engenharia Ferroviária. Coordenador do Grupo Fluminense de Preservação Ferroviária - GFPF.

24/05/2018 - GFPF - Grupo Fluminense de Preservação Ferroviária
         
           
     

O Capitalismo Destruindo o Brasil.

sexta-feira, 1 de junho de 2018

Arrastando a Múmia

        Muitos se perguntam, o que segura Michel Temer no cargo? Um notório corrupto, repudiado e desprezado pela esmagadora maioria do povo, ainda assim, essa múmia segue no governo juntamente com seus comparsas.

    A questão é que o bloco das facções burguesas e do imperialismo, ao promoverem a remoção da presidente eleita, formaram uma aliança efêmera, ancorada exclusivamente na retirada dos direitos trabalhistas e previdenciários, privatização do que resta das estatais e no corte dos investimentos sociais, essas medidas foram implementadas em parte, ficaram de fora as privatizações e a reforma da previdência. Tanto é assim, que faltando quatro meses para as eleições, esse bloco não logrou se unificar em torno de uma candidatura presidencial.  


Uma figura repudiada pela maioria esmagadora do povo brasileiro.

    A resultante disso foi a continuidade da crise econômica e social, fermento para a crise política que não para de se agravar na sequência das denúncias de corrupção envolvendo os partidos que dão sustentação à democracia burguesa.

    Considerando o descrédito das suas lideranças, a maioria delas está presa ou respondendo a processos, fica cada vez mais difícil articular uma saída eleitoral estável do ponto de vista burguês. Esse é o dilema atual das mais poderosas facções burguesas. Diante dele, talvez estejam na iminência de ter que apelar para um novo "Collor", dessa vez piorado: o fascista Bolsonaro.

     Mas, por enquanto, seguirão arrastando a múmia.

Caro leitor, ajude a divulgar o Página 1917, compartilhe nossas publicações nas suas redes sociais.

Comentários ofensivos e falsidades não serão publicados.