Gramsci, nesta carta de 1930, ainda que de forma sutil, como não poderia deixar de ser face a situação que se encontrava, provavelmente se referia aos golpes, por ele inesperados, vindos dos seus próprios camaradas do PCI e da Internacional Comunista, na época já obedientes ao grupo dirigente que dominou completamente o PCUS após a morte de Lenin.
Penitenciária de Turi, 19 de maio de 1930.
Querida Tania,
[...] Você, creio, nunca refletiu bastante sobre o meu caso e não o sabe decompor em seus elementos. Eu me encontro submetido a vários regimes carcerários: o primeiro consiste nas quatro paredes, nas grades, nas bocas de lobo, etc.; etc.; já estava previsto por mim como possibilidade subordinada, porque a principal, de 1921 a novembro de 1926, não era a prisão, mas perder a vida. O que não tinha sido previsto por mim era o outro cárcere, que se acrescentou ao primeiro e se constitui em ser cortado não só da vida em sociedade, mas ainda da vida familiar, etc., etc.
Podia prevenir os golpes dos adversários que combatia, mas não os que me seriam infligidos ainda por outros lados, dos quais menos podia esperar (golpes metafóricos, entende-se, mas até os códigos dividem os crimes em atos e omissões; isto é, também as omissões são golpe ou golpes). Eis tudo. [...]
Fonte: Cartas do Cárcere, 2ª edição, 1978, Civilização Brasileira.
Edição: Página 1917

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