Cem Flores
04/01/26
Após anos de ameaças, sanções e tentativas de golpes, intensificadas nos últimos meses com saques, cercos e ataques militares, os EUA bombardearam o território venezuelano e sequestraram o presidente e a primeira-dama do país na madrugada do dia 3 de janeiro. Essa gravíssima agressão ao povo venezuelano foi realizada por meio de uma ampla operação militar por mar, terra e ar e atingiu sobretudo alvos na capital Caracas. Até o momento, estima-se que dezenas de venezuelanos, civis e militares, morreram nos ataques. Maduro apareceu horas depois, preso em solo norte-americano, e deve ser julgado, em escandalosa intervenção em um país soberano.
Ainda há várias questões sem esclarecimento. Entre elas, não se sabe ainda sobre prováveis traições e o nível de colaboração interna para que a operação imperialista ocorresse com sucesso. De toda forma, é possível de imediato apontar os limites do “bolivarianismo” que, em vez de saída revolucionária e socialista para as graves e sucessivas crises econômicas e políticas, apostou em tentativas de estabilização interna sob apoio de parcelas da burguesia interna e de outras potências imperialistas, o que ampliou a desigualdade, e fomentou ilusões e vacilações quanto à ameaça representada pelos governos Trump. Uma coisa é certa: caso os próprios trabalhadores não tomem as rédeas da resistência anti-imperialista, qualquer que seja o desenlace desse ataque será prejudicial a eles!
Em suas declarações públicas, o presidente fascista dos EUA, Donald Trump, escancarou também em palavras os objetivos da potência imperialista em declínio relativo, na Venezuela e demais países da América Latina. Além das alegações fajutas de combate ao tráfico de drogas, e das promessas cada vez mais esgarçadas e cínicas de “democracia”, Trump afirmou abertamente que vai colocar na Venezuela as “grandes empresas petrolíferas dos Estados Unidos”, e para isso irá “governar o país até que possamos fazer uma transição segura, adequada e criteriosa”. Por fim, ainda ameaçou explicitamente Cuba e Colômbia. América – e todos os seus povos e riquezas – para os americanos, eis a ameaça que abre o segundo ano desse governo Trump, a ser combatida pelos trabalhadores de todos os países!
Não restam dúvidas de que o imperialismo dos EUA tende a agir de forma cada vez mais agressiva e reacionária em nossa região para garantir seus interesses econômicos, políticos e militares. Como afirmamos em nossa Declaração Política do 4º Encontro de Organização, publicada recentemente no site:
“Para a América Latina, a estratégia de Trump é reforçar a submissão ao imperialismo dos EUA, com ataques ainda maiores, contra México, Colômbia e Venezuela. Neste último incluindo inédito cerco militar naval, com deslocamento do maior porta-aviões dos EUA, navios e caças; lançamento de ação militar específica (Lança do Sul); reabertura de bases militares para reforçar o cerco e as ameaças de guerra; bombardeios de embarcações, assassinatos de seus tripulantes e apreensão de petróleo; e autorização para “incursões” da CIA, sabotagens e assassinatos, inclusive de Maduro, visando derrubar o governo e instalar um títere dos EUA. Em contraste, há o tratamento preferencial aos presidentes de extrema-direita, como os da Argentina, El Salvador, Equador; aos movimentos de extrema-direita no Brasil, no Chile e demais países; e aos seus candidatos, como nas recentes eleições na Argentina, Bolívia e Chile. Isso reforça que o projeto imperialista dos EUA de submissão da América Latina inclui, no seu aspecto político, o apoio explícito à derrubada de governos não inteiramente alinhados, por meio de crises econômicas, interferências em eleições, intimidação militar e outros. Esses ataques imperialistas têm provocado, em diferentes níveis, algum tipo de reação nacionalista por parte desses governos burgueses e de parte da “esquerda”, com maior (México) ou menor (Brasil) participação popular. Porém, em todos os casos, são reações majoritariamente institucionais e com posições de classe burguesas, ou seja, buscando acordos com o imperialismo, com a manutenção da dominação imperialista e de nossa condição de países dominados.”
Essa ofensiva ianque não ocorre no vazio. Trata-se de uma reação que visa frear a expansão da potência imperialista rival chinesa nessa região estratégica. E é sob esse agravamento das contradições interimperialistas, de aumento da repressão, do autoritarismo/fascismo e das guerras em todo o mundo, que o proletariado, demais trabalhadores e povos oprimidos precisam reforçar sua organização e luta, sem ilusões com seus inimigos de classe.
No Brasil, nosso papel é sair às ruas em defesa do povo venezuelano, contra a agressão imperialista e seus apoiadores internos – da imprensa “democrática” à extrema-direita servil. Defender que tal resistência impulsione um processo de fato revolucionário, com poder nas mãos dos trabalhadores e avanço para o socialismo. É também nosso dever denunciar o papel conivente do governo burguês brasileiro, que em plena escalada da agressão à Venezuela reforçava seus laços de amizades com Trump. Afinal, como alertava Lênin: “o maior perigo, neste sentido, são as pessoas que não querem compreender que a luta contra o imperialismo é uma frase oca e falsa se não for indissoluvelmente ligada à luta contra o oportunismo”.
Fonte:https://cemflores.org/2026/01/04/a-agressao-imperialista-dos-eua-ao-povo-venezuelano-e-o-agravamento-das-contradicoes-interimperialistas/
Edição: Página 1917

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