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quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

Marines no Uruguai e o garrote no Caribe: a Doutrina Monroe-Condor de Trump

Luís Vignolo

 América Latina na mira do imperialismo.


A agressão imperial dos Estados Unidos contra a América Latina e o Caribe atingiu seu ápice desde os tempos da Guerra Fria com o segundo mandato de Trump.

Não é uma coincidência imprevista que isso esteja acontecendo. O poder relativo dos Estados Unidos no mundo está diminuindo devido à ascensão da China, ao ressurgimento da Rússia, à criação e expansão do BRICS e à deterioração da capacidade industrial americana, entre outros fatores. Uma redistribuição do poder global entre as grandes potências está em curso.

Nesse cenário, que tem sido chamado de “uma guerra mundial em etapas”, complementado pelo que temos chamado há anos de “uma nova Yalta em etapas”, era altamente previsível que os Estados Unidos buscassem assegurar o controle incondicional do território que continuam a considerar seu “quintal”, nossa América Latina indo-afro-americana. A República Imperial Ianque se consolidou como tal no século XIX, à custa de sua expansão na América Latina e no Caribe, antes de se aventurar no cenário mundial, muito antes de disputar o poder no vasto espaço euro-afro-asiático.

É neste contexto que o amplo destacamento naval de Washington no Caribe e as múltiplas ameaças contra a Venezuela, incluindo anúncios de ações militares contra a terra natal de Bolívar, devem ser compreendidos. O afundamento de dezenas de embarcações no Caribe, bem como no Pacífico, e as mortes injustificadas de quase uma centena de passageiros constituem sinais de alerta inequívocos, completamente fora dos limites do direito internacional. O anúncio do lançamento da "Operação Lança do Sul" inevitavelmente traz à mente a Operação Condor, um evento trágico em nossas terras. O cerco à Venezuela é também um aviso dirigido a todos os nossos países.

Essas ações, além das do renomado "Departamento de Guerra", incluem a ocupação temporária de uma praia no coração do território mexicano, diversas represálias como tarifas injustificadas e pressão sobre o judiciário local, como ocorreu particularmente no Brasil e na Colômbia. Inclui-se também a flagrante interferência do presidente Trump nas campanhas eleitorais da América Latina. O intervencionismo ianque nessas questões não é novidade, mas geralmente era a embaixada que exercia pressão eleitoral. Agora é o próprio Trump, sem qualquer tentativa de disfarce, que se vangloria de sua intromissão e reivindica explicitamente as "vitórias".

Um dos exemplos mais marcantes desse novo intervencionismo estadunidense foi a intervenção direta do Tesouro dos EUA no mercado cambial argentino para estabilizar a taxa de câmbio do dólar durante a semana que antecedeu as recentes eleições parlamentares, em favor de Milei. Esse tipo de ação financeira parece ser inédito.

Nesse contexto, vale lembrar que o aumento da presença militar dos EUA no Caribe começou no início de agosto deste ano, 2025. Coincidentemente, em meados desse mesmo mês, um grupo de fuzileiros navais americanos entrou no Uruguai sem autorização parlamentar. Esse lamentável incidente foi recebido com tentativas insustentáveis ​​de justificação.

Mais recentemente, o governo uruguaio (1) solicitou aprovação legislativa para que militares dos EUA realizassem um exercício cibernético na segunda semana de dezembro. Quais serão as consequências disso para a soberania dos sistemas de informática e telecomunicações do nosso país?

Ao mesmo tempo, o navio patrulha britânico FVP Lilibet , em serviço nas Ilhas Malvinas, fez uma escala no Uruguai em novembro, reforçando a cooperação com a ocupação britânica das ilhas. Dado o trânsito de navios e aeronaves militares britânicas por portos e aeroportos uruguaios, devemos questionar o alcance e as consequências dessa cooperação com a potência ocupante do Atlântico Sul. O que Tony Blair propôs durante sua visita ao Uruguai?

Enquanto tudo isso acontece, o governo uruguaio ignorou o convite de Lula para aderir ao BRICS, assim como a proposta de Dilma Rousseff de integração ao Banco do BRICS. Até onde irá esse alinhamento com os Estados Unidos?

Essas são perguntas que todos os uruguaios deveriam se fazer.

Uma agressão militar dos EUA contra a Venezuela, caso se concretize, seria uma agressão contra a Pátria Maior, contra toda a nossa América. Daria origem a uma prolongada guerra popular de libertação nacional, com efeitos diretos sobre a estabilidade política e a paz de seus vizinhos, especialmente, embora não exclusivamente, na Colômbia.

Partindo de nossas melhores e mais profundas tradições anti-imperialistas, bem como de nossas tradições unionistas latino-americanas, bolivarianas, sanmartinianas e artiguistas, e com os ensinamentos locais de Carlos Quijano, Vivian Trías, Alberto Methol Ferré, Carlos Machado e José E. Díaz, reiteramos o que temos dito e escrito repetidamente há pelo menos uma década. A guerra ou a paz na República Bolivariana da Venezuela será a guerra ou a paz da América Latina e do Caribe, de toda a nossa Grande Pátria.

(1) Governo da Frente Ampla, dito de "esquerda", "progressista" (nota da edição Página 1917).

Edição: Página 1917

Fonte: https://periodicoclaridad.com/sitio/

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