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quarta-feira, 23 de dezembro de 2020

Nem Fascismo, nem Liberalismo: Sovietismo!

Antonio Gramsci*

7-10-1924

Na crise política pela liquidação do fascismo, o bloco de oposição parece ser progressivamente um fator de ordem secundária. Sua composição social heterogênea, suas vacilações, e sua aversão a uma luta das massas populares contra o regime fascista, reduz suas ações a uma campanha jornalística e a intrigas parlamentares, as quais combatem impotentemente contra a milícia armada fascista.



No movimento de oposição ao fascismo, o papel mais importante passou para o Partido Liberal porque o bloco não possui outro programa para opor ao fascismo que não o velho programa liberal da democracia parlamentar burguesa, o retorno para a constituição, para a legalidade, para a democracia. Na discussão a respeito da sucessão ao fascismo, de acordo com o congresso do Partido Liberal, o povo italiano é colocado pela oposição diante de uma escolha: ou fascismo ou liberalismo; ou um governo ditatorial sangrento de Mussolini ou um governo de Slandri, Gioliotti, Amendola, Turati, Sturzo ou Vella, tendendo ao reestabelecimento da boa e velha democracia liberal italiana, em que a burguesia continuará, sob essa máscara, a exercer sua lei exploratória.

O operário, o camponês, que por anos odiaram o fascismo que os oprime, acreditam ser necessário, para liquidá-lo, aliar-se com a burguesia liberal, apoiar aqueles que no passado, quando estiveram no poder, apoiaram e armaram o fascismo contra os proletários e camponeses, e que há alguns meses atrás formaram um bloco sólido com o fascismo e repartiram a responsabilidade por seus crimes. E é assim a maneira como a questão da liquidação do fascismo está posta? Não! A liquidação do fascismo deve ser a liquidação da burguesia que o criou.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2020

Audácia, Mais e Sempre, para Derrotar o Capitalismo.

Samir Amin* [2018]

As circunstâncias históricas criadas pela implosão do capitalismo contemporâneo exigem da esquerda radical, no Norte como o Sul, que seja ousada na formulação de sua política alternativa ao sistema existente. O objetivo deste artigo é mostrar por que audácia é necessária e o que ela significa.



Por que audácia?

1. O capitalismo contemporâneo é um capitalismo de monopólios generalizados. Com isto quero dizer que os monopólios não são já mais ilhas grandes num mar de empresas relativamente autónomas, mas que são um sistema integrado, que controla absolutamente todos os sistemas de produção. Pequenas e médias empresas, mesmo as grandes corporações que não são estritamente oligopólios, estão sob controle de uma rede que substitui os monopólios. Seu grau de autonomia viu-se reduzido ao ponto de se converterem em subempreiteiras dos monopólios.

Este sistema de monopólios generalizados é produto de uma nova fase de centralização do capital que teve lugar durante os anos 80 e 90 nos países que compõem a Tríade (Estados Unidos, Europa e Japão).

Os monopólios generalizados dominam agora a economia mundial. "Globalização" é o nome que deram ao conjunto de demandas mediante as quais exercem o seu controlo sobre os sistemas produtivos da periferia do capitalismo global (periferia percebida como o mundo abaixo da Tríade). Isto não é mais que uma nova fase do imperialismo.

2. O capitalismo dos monopólios generalizados e globalizados é um sistema que garante que estes monopólios gravem impostos sobre a massa de mais-valia (transformada em lucros) que o capital extrai da exploração do trabalho. Na medida que estes monopólios estão operando nas periferias do sistema global, a renda monopólica é renda imperialista. O processo de acumulação capitalista — que define o capitalismo em todas as suas sucessivas formas históricas — é determinado pela maximização da renda monopólica/imperialista que persegue.

Este deslocamento do centro de gravidade da acumulação do capital é a fonte da contínua concentração do rendimentos e a riqueza em benefício dos monopólios, amplamente controlada pelas oligarquias (plutocracias) que governam os grupos oligopólicos à custa da remuneração do trabalho e mesmo da remuneração do capital não monopólico.

3. Isto põe em risco o mesmo crescimento, desequilibrando a fonte de financeirização do sistema econômico. Com isto, refiro-me a que o segmento crescente da mais-valia não pode ser investido na expansão e aprofundamento dos sistemas de produção e por conseguinte o investimento financeiro da mais-valia desmedida volta-se a única opção para sustentar a acumulação sob o controle dos monopólios.

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